5 de junho de 2011

Tarkovsky

Offret
Stalker
Nostalghia
Zerkalo
Solyaris
Ivanovo Detstvo
Andrey Rublyov
Katok i Skripka
Segodnya Uvolneniya ne Budet

*não quer dizer que daqui a uns tempos a ordem seja a mesma.

2 de junho de 2011

Attenberg (2010)
Athina Rachel Tsangari

Há em Attenberg um força tão incontrolável, tão incomensurável que nos arrasta para uma filosofia primitivista e sobretudo limitadora da condição humana e da animalização do homem. Há, no entanto, muito mais de melancolia e de sentimento pueril ainda que escondido na estranheza e no insólito das relações inter-pessoais daquelas três personagens. À semelhança das de Kynodontas, também aqui aquela gente parece viver num mundo idílico criado por eles, ainda que aqui se confronte (e aceite) todo o prazer carnal ou libidinoso do ser humano. Contudo, é a morte que assombra quase a totalidade do filme, que paira sobre aquelas personagens e as molda. Porque é a aproximação da morte do pai que faz Marina perder toda a timidez e, essencialmente, toda a repulsa pelo sexo (em especial pelo órgão sexual masculino), é a certeza da chegada da morte que a faz ter certas conversas com o pai, que a faz pedir aquele favor a Bella. À primeira vista Attenberg poderá parecer um filme frio, coisa que não é. Eu diria que é um filme seco, dissimulado, mas frio não. Aquele final afasta qualquer ideia de frieza, bem como toda a conduta de Marina para com o pai (ou para com a morte que pouco a pouco galga no pai). Há ali muito amor paternal, muita compaixão (embora ela a rejeite - à compaixão - a determinada altura), muita ternura na forma como apresenta aquela jovem que nunca sequer um beijo deu. Mas o que há, principalmente, é a metáfora duma limitação do ser humano à sua animalização e consequentemente a descoberta daquilo que de mais animalesco o ser humano tem (o sexo) e a reflexão à sua condição humana, a morte. A aceitação tanto duma coisa como doutra.

31 de maio de 2011


Le Lit de la Vierge (1969)
Philippe Garrel

Le Lit de la Vierge é, antes de mais, o completo antagónico quer de Les amants réguliers quer de La frontiere de l'aube, é coisa tão arcaica, tão experimentalista, hipnótica, alucinante, tão perto de Pasolini ou de Straub, objecto de influência a tanto Lynch (Ereserhead à cabeça), Cronenberg na fase do Stereo. Há tanto onirismo ali, tanta pressão na desmitificação do mito, tanta preocupação no raccord, na teatralidade das acções, dos movimentos, tanta moral atrás daquilo tudo. Le Lit de la Vierge é um filme sombrio, negro, um autêntico pesadelo psicadélico ou coisa assim, é tudo desmesuradamente enigmático, simbólico, hiper-melancólico, mordaz, coisa obcecada pela representação, pela veracidade da representação, sei lá, peculiar mas belo, muito belo. Filme de planos, de mestre a filmar, completamente de mestre, incrivelmente atraente, duma beleza ímpar, com movimentos de câmara brutais, o enquadramento, o ritmo, o tempo dos planos e das acções, os planos e a paisagem, a profundidade de campo, está lá tudo nesta obra-prima. É entrar no mundo de Garrel, naquele mundo alegórico, descrente, erosivo, brutal mas ao mesmo tempo tão lírico. Le Lit de la Vierge mais que bíblico é apocalíptico, brutalmente apocalíptico, é no fim de contas a constatação de que o ser humano é feio, é cruel, é uma condenação, um julgamento, sei lá…acima de tudo um lamento.
I believe my point of view on the Christian myth is quite clear in The Virgin’s Bed. It is a non-violent parable in which Zouzou incarnates both Mary and Mary Magdalene while Pierre Clémenti incarnates a discouraged Christ who throws down his arms in face of world cruelty. In spite of its allegorical nature, the film contains a denunciation of the police repression of 1968, which was generally well understood by viewers at the time.
Philippe Garrel

Philippe Garrel provides himself with a genuine liturgy of bodies, he restores them to a secret ceremony whose only characters are Mary, Joseph and the Child. This is hardly a pious cinema, even though it is a cinema of revelation. If the ceremony is secret, it is precisely because Garrel takes the three characters 'before' the legend, before they have made a legend or constituted a holy story : the question posed by Godard "What did Joseph and Mary say to each other before having the baby ?", not only heralds a project of Godard's but sums up Garrel's experiences. The theatrical hieratism of characters, noticeable in his first films, is uncreasingly focused on a physics of fundamental bodies. What Garrel expresses in cinema is the problem of the three bodies: the man, the woman and the child. The holy story as gesture.
Gilles Deleuze