17 de maio de 2011

Овсянки - Ovsyanki (2010)
Aleksei Fedorchenko

A Ovsyanki atribua-se-lhe toda a melancolia do mundo, mais que qualquer dor de perda o que reina ali é a melancolia aliada à frieza própria dos russos. Mitos e ritos a misturarem-se com o presente e com as memórias do passado, saudade e lamentos dos que foram e um estado inexorável de melancolia que atravessa o filme inteiro naquela viagem ambígua em direcção ao ritual de incineração do cadáver. Mas a frieza que existe, coisa que sempre me pareceu inerente aos russos (e aos nórdicos), talvez pela neve que quase sempre está lá e que os molda, aqui é qualquer coisa também ambígua. Porque Ovsyanki não é um filme frio por mais neve que tenha, por mais metódicos que aquele homem que acabou de perder a mulher e o narrador que o acompanha (a voz-off é dele) sejam nas suas acções. Não, Ovsyanki é um filme cinzento (e não há melhor cor para a melancolia), singelo, lírico, repleto de movimentos de câmara estrondosos a fazer lembrar Tarr, enquadramentos e planos-sequência monumentais, alguns momentos na procura dos olhares e das expressões na impressão da dor, uma fotografia lindíssima, contemplativo muito contemplativo, naturalista, sempre no caminho de Tarkovsky e Dreyer. No final percebemos que é uma fábula, que é acima de qualquer coisa um filme sobre o amor ou sobre a resistência do amor à morte. Melodrama e romantismo sem lamechices, sem choradeiras e as merdas do costume. Um filme belo.

16 de maio de 2011

The Informer (1935)
John Ford

The Informer de John Ford são fluxos de sombras de implacabilidade a rasgar o ecrã uma e outra e outra vez incessantemente, qualquer coisa tão feroz e tão brutal quanto a culpa da traição que remói e remói a consciência do homem. Tudo é arrancado às trevas que as traz com ela (com a culpa) para naquela noite, negra de tão negra quanto a morte e quanto a névoa tão cerrada que paira pela cidade e que turva qualquer visão que possa resplandecer na multidão, assombrar o mundo e aquele homem que por um impulso que veio da fome e, acima de qualquer coisa, do amor, trai o melhor amigo condenando-o assim ao destino fatídico a que assistimos. Sobre ele cairá toda a culpa do mundo e sobretudo todas as trevas que se possam imaginar, nada de fugacidades ou de implicações fugidias, tudo é tão interminável quanto a certeza da morte, tudo é tão perpetuamente terrífico na certeza do destino que foi e daquele que virá, abrupto e irrompido tanto da traição quanto da morte, nas sombras da bruma (que poucas vezes tão bem exprimiu as trevas do mundo) cerrada que amaldiçoa aquela noite maldita naquele submundo duma Dublin a ferro e fogo com o jugo inglês. Não admira portanto, em tempo de sublevações e resistências obscuras, a desmesurada magnitude que a palavra traição assume. Gypo, o judas da história, não só traiu o amigo como traiu a causa, tem, por isso, de ser forçosamente eliminado. E é ele próprio, dominado pelo medo e pelo martírio da culpa, que aos poucos e poucos (e com a ajuda do álcool) se vai “entregando” (ou denunciando) à organização. Grandioso.
E enquanto anda tudo com altas expectativas para o novo filme do Malick (não que eu não as tenha também), as minhas vão principalmente para o Le gamin au vélo dos Dardenne e, claro, para o novo do Dumont...e o Kaurismäki também lá anda!

15 de maio de 2011

Schastye Moe (2010)
Sergei Loznitsa

Schastye Moe começa com um cadáver a ser lançado numa cova e a ser coberto por cimento e terra. Pouco depois somos levados a seguir o homem, o camionista que irá mergulhar (parafraseando Vasco Câmara) "nas profundezas da História, da mentalidade e da sociedade russas". E no trajecto, no primeiro trajecto deste road movie frio e brutal (e não há palavra melhor para qualificar o filme), desde o que parece ser uma estação ferroviária até sua casa onde vai buscar a merenda, ouvimos dentro do veículo uma música que (a julgar pela tradução inglesa) nos diz tudo sobre o filme e principalmente sobre a tal Rússia profunda: How to atone for mother’s tears? We will not return here anymore So many of us fell in this long campaign Our work remains unfinished, but… We are going away, going… Farewell, mountains, you know best What price we paid here What enemy we didn’t conquer What friends we lost here Friend, empty the bottle into three glasses That’s how many survived of out brave unit A third toast, even the wind falls silent on the slopes We are going away, going… Farewell, mountains, you know best What we had, what we gave away Our hopes and our sorrows…Está aí tudo sobre o que é Schastye Moe ou My Joy, os lamentos e a desolação do povo russo (da “mãe Rússia” sobretudo), os fantasmas da guerra e do comunismo (a História), a mentalidade, as profundezas dum povo tão gélido quanto a neve que os envolve. Da História virá logo depois do primeiro encontro com aqueles dois polícias (engraçado como Loznitsa vai lá ter, àquele “checkpoint” policial, no final) na estória do velho (que o salvará mais tarde) onde abruptamente passamos do presente para o passado (segunda guerra mundial) para nos contar como ele (aquele velho) perdeu a sua identidade (e a noiva). E começamos a perceber que Schastye Moe será filme de perda, até porque a canção já assim o augurava. Mas muito mais há ainda para escrever, e mais ainda para perder (que sobretudo se alastra à identidade nacional), mesmo que tudo aquilo, aquele presente que se confunde com o passado, seja mesmo isso de repercussões do passado que estranhamente se volta uma e outra e outra vez a repetir, o não aprender com os erros de que o cineasta falava numa entrevista a VC, e por isso o velho é quem o recolhe do meio da neve e o leva para casa, por isso o reencontro final com o lugar e os polícias como se tudo aquilo fosse um círculo vicioso (palavras do cineasta na tal entrevista) aludindo não só à História como à mentalidade e consciência daquela Rússia tão actual como a de à cinquenta anos atrás.

Schastye Moe é uma viagem que se torna alucinatória e assombrosa (de pesadelo) onde a tal Rússia profunda se manifesta. O que encontramos é a recusa nalgum tipo de compaixão como quando aquela garota com aspirações a puta recusa o dinheiro sem ter que foder, porque ela sabe que aquela Rússia é desprovida de humanismo ou uma qualquer compaixão e o melhor mesmo é habituar-se à brutalidade desta, realismo exacerbado ou visceral que reifica por ali, é a perversão e o abuso de poder da polícia, a implacabilidade daquela noite em que Georgy se perde como tantas outras noites que marca a tal História russa que de violências em violências, resultados de tantos abusos de poder e de discriminações sociais, acabam por seguir sempre o seu rumo (o da violência) sem que nada em contrário o possam fazer, noite essa que determinará o curso daquela viagem, o destino daquele homem, brutalidade das brutalidades que resulta na perda da memória quer do homem quer da sociedade, coisa que os condena a viver naquela desolação animalesca em que o frio e a escuridão da noite rouba qualquer sentido de calor humano ou de fraternização. Mais tarde, noutro flashback, voltamos à História e aí veremos como se tratavam aqueles que acreditavam que ceder aos alemães era um mal menor (mais palavras do cineasta na tal entrevista), episódio dum dos vagabundos que naquela noite se cruzam com Georgy, filho da violência ao qual os outros chamam de mudo, as tais repercussões do passado que está tão embrenhado no presente e nos quais, na verdade, não há distinção, a mentalidade violenta que tarda a desaparecer.

Schastye Moe é uma obra-prima brutal, filme da perda duma identidade à muito perdida, a da própria Rússia que vive desolada e imersa num caos social e mental de perversão, violência e corrupção onde o passado controla o presente e assombra o futuro. Monumental, brutal, implacável…
Les amants réguliers (2005)
Philippe Garrel

Les amants réguliers é coisa de megalómano sem rumo, talvez um furioso em desavença com o passado ou na amargura do presente, não sei, Garrel parece querer desacreditar toda a mística e todo o prestígio do movimento estudantil do Maio de 68, mete-los nas antípodas, faz um filme lento e lento e lento sem que nos leve a algum lado, a alguma ilação que não seja a que tiramos ao fim de pouco mais de meia-hora de filme, arrasta-se e volta-se a arrastar como se não houvesse amanhã, esforça-se por denegrir a imagem do mítico mês e ano revolucionário, resume tudo (ou aquele tudo que parece ser auto-biográfico) numa questão burguesa de obstinações artísticas e amorosas/sexuais que se mergulham num mar de drogas (ópio acima de tudo) em detrimento do espírito revolucionário e intelectual que identifica a revolução estudantil. Banaliza, desmitifica, desvaloriza tudo, toda uma geração – a sua geração – coisa de rebelde infantilizado, chega à conclusão de que afinal o amor é mais importante que os ideais e acima dessas duas está o dinheiro, o sucesso, a carreira profissional, o futuro, é isso que Garrel nos diz, que aquilo tudo eram balelas, todos os ideais, que no final somos todos materialistas, vendidos, cheios de ideais falsos ou efémeros, opacos, coisas que se banalizam ao primeiro contacto com o capitalismo, com o poder da burguesia essa praga social que controla o mundo. É isso que Garrel faz, desvirtua tudo numa fotografia a preto e branco estilizada, foge a qualquer subversão ou sublevação jovial, imerge na letargia daquela geração, etc…

13 de maio de 2011

Sicilia! (1998)
Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

Sicilia! de Straub e Huillet, pouco mais de uma hora de declamações e conformações ou demarcações do espaço e do tempo, do diálogo e do tom operático que reifica Sicilia!. Não é documentário, é ficção dentro da realidade ou realidade dentro da ficção, coisa seca e organizada ou simétrica na posição dos actores e de tudo o que os rodeia, do espaço, no décor, na découpage, na mise-en-scène, nos movimentos, nos olhares, na condução narrativa e fílmica, no ritmo, no tom e nos espaços dos diálogos (o declamar). É tudo uma questão de colocação, de como enquadrar, de como declamar e entoar a obra de Elio Vittorini, de como filmar aqueles espaços e aqueles momentos, aquela gente, aquela história e as histórias por detrás da história, a luz e a sombra, o campo e o contracampo. Acima de tudo, liberdade cinematográfica e sua inteligência. Aconselha-se a leitura deste magnífico texto.

Essential Killing é daqueles filmes que sabem a pouco. Porquê? Porque está tão perto mas tão perto de ser tão grande, um grande filme, e pelos momentos espalhados pela hora e vinte e cinco minutos do filme onde Skolimowski envereda por alguns clichés (comer formigas e outras merdas do género), pelos flashbacks que me parecem desnecessários, por uma certa ausência de crueza, de frieza e de brutalidade que me parece faltar ali tanto na imagem como na narrativa. Por isso sabe a pouco, porque podia ser tão grandioso mas tão grandioso…
Thriller onde os diálogos são escassos porque não fazem falta nenhuma, o argumento é das coisas mais simples que há porque da simplicidade nascem as obras mais poderosas, seguimos o homem em busca de algo que ele sabe que não vai encontrar, a salvação (porque ele está perdido no meio do nada onde nem sequer sabe onde fica esse nada, perseguido pelo exército americano, ferido e cada vez mais esfomeado e enregelado pela neve), e seguimos esse homem na sua luta permanente pela sobrevivência. Ali não há bons são todos maus, a merda é toda a mesma, só muda a nacionalidade, só muda o poder dos homens (nada mais verdadeiro). Essential Killing é um bom filme, mas tinha potencial para ser tão melhor!

11 de maio de 2011

Sergeant York (1941)
Howard Hawks

Sergeant York é o mais Fordiano filme de Hawks, o mais humano, o mais patriótico, o mais singelo e o mais lírico dos filmes de Hawks. Sergeant York habita ou passeia-se pelo coração/alma do cinema clássico norte-americano/hollywoodiano, mas mesmo aí, em terrenos tão comuns a Hawks, Sergeant York é das coisas mais puras e mais belas jamais feitas no cinema americano. A história de um herói nascido da terra que à terra (e pela terra mas não só - já lá iremos) anseia voltar (durante o seu percurso na guerra), já que é pela terra que York tudo faz (e a terra assume um dos mais altos valores, assim como a família (sobretudo a figura maternal), coisa que só fortifica o seu universo Fordiano (ao filme claro) - e há tanto mas tanto de The Grapes of Wrath aqui, o lirismo de Young Mr. Lincoln), e é neste tudo (e noutros) que Hawks não só glorifica (mais Ford) Sergeant York como lhe atribui a sua dimensão bíblica. Lembremo-nos do momento em que York, embriagado e enraivecido com Nate Tomkins que lhe dera a sua palavra e depois não a cumprira, cavalgando em plena noite tempestuosa em direcção à terra deste, com a sua arma e encolerizado e disposto a fazer justiça com as próprias mãos, lembremo-nos desse momento em que os trovões (e o pastor Pile já lhe dissera antes que era o diabo que falava por ele, que o atentava e o possuía, e se há coisa que figure as trevas e a sua tenebrosidade é o trovejar) ou clarões caem como mais tarde na guerra bombas cairão e farão tombar companheiros, anacronismo da simbologia, coisa pueril que lavra a redenção que daquele trovoar ou daquelas trevas irá emergir. A luz, York vê a luz como mais tarde a voltará a ver para conseguir distinguir a fé do patriotismo, lirismo não só das imagens como da estória, ideais ou valores morais a bradar mais alto que qualquer sentido de vingança ou de irascibilidades, caminho de integridades (que é o mesmo que dizer caminho de Capra). Nesse momento York renasce das trevas (não só das daquele momento como daquelas em que estava imergido) e o que faz? Vai à igreja. Sim, vai à igreja e dá-se a remissão depois da redenção, o começo duma nova vida, um novo York (e tudo começou por causa de Gracie, pelo seu amor por ela). Depois virá a guerra e nela se solidificará o homem com a sua fé e o seu patriotismo para no fim (ou perto do fim) se erguer a sua integridade moral e ética. Sergeant York, filme das trevas e das sombras (as sombras de Hawks) dessas trevas, negrura que de tão negra como daquele momento antes da ida à igreja se desvanece para nunca mais voltar (nem mesmo na guerra), filme da terra, do amor à terra e da família. Monumental.

10 de maio de 2011

A redenção de Dostoievsky por Sternberg

Crime and Punishment (1935)
Josef von Sternberg


Some Like It Hot (1959)
Billy Wilder