16 de abril de 2011

Yumurta (2007)
Semih Kaplanoglu

Se há coisa que Yumurta faz é lidar com a culpa, com os remorsos, com a dor da perda mas mais importante com a dor da inevitabilidade, do “não volta mais”, do “podia ter feito isto e aquilo”. Assim, o primeiro filme da trilogia de Yusuf (a tal trilogia ao contrário) é, na sua superficialidade, uma dissertação da reacção humana à morte do ente querido. Mais fundo, entranhado na consciência do poeta, e embora mergulhado em rituais e superstições religiosas, Yumurta é essa exploração do filho que vive longe da mãe e que, ao perdê-la, se auto-comisera e consciencializa do tempo perdido (com a mãe) que essa distância/ausência lhe causou. Kaplanoglu filma tudo com uma calma inaudita, gosta dos silêncios, das expressividades, dos olhares, dos gestos, coisas que dizem mais que mil palavras, coisas que nos fazem estar atentos aos detalhes, cinema na sua verdadeira forma ou simplesmente cinema do caralho, cinema contemplativo, naturalista, coisa minimalista e poética. Sublime.

15 de abril de 2011

Круг второй (1990)
Aleksandr Sokurov

Круг второй (The Second Circle), filme do tormento ou do purgatório como já alguém escreveu, coisa dantesca (e não é só o título que a isso recorre) na formação do espaço ou da leitura temporal ou, mais que isso, na sua conturbada génese temática da morte ou da reacção à morte, espiritualidade e coisa invariável sobretudo da brutalidade do mundo, terrivelmente anacrónica e acima de tudo imutável na sua característica ou melhor na sua origem. Toda a desolação do mundo assola aquele espaço claustrofóbico e dúbio daquela casa em que, filmada por Sokurov, ainda mais abafada fica, como se todo o ar que o ser humano necessita para viver, todo o ar que àquele cadáver foi retirado nos fosse também a nós a pouco e pouco consumindo, em toda aquela negrura do apartamento, como se o local onde o cadáver permanece ficasse também ele contaminado pela obscuridade da morte. Coisa brutal em toda a perplexidade daquele filho, a apatia que lado a lado com a dor ameaça ruir tudo, tudo mas tudo que desaba em cima dos ombros daquele homem, o mundo todo em constante desmoronamento, coisa ascética e tormentosa que vem do interior. A queda iminente aos confins do inferno na terra e na vida, coisa que Sokurov filma magistralmente, monumentalmente, brutalidade das brutalidades, o impacto da morte do ente querido, a força da reacção ou da forma de lidar com a morte e com o que há a fazer, crueldade das crueldades que não dá tempo para chorar a morte de quem se ama causada pela obrigação de limpar o corpo gélido do defunto e tratar do serviço fúnebre, qualquer coisa sagrada que faz com que aquele filho se recuse a cremar o corpo do pai. Melancolia insolúvel que causa irascibilidade no espectador, coisa contínua no tempo, crueza da vida e do ser humano, reflexo deste e da sua insensibilidade, as heranças (ou o que se lhe assemelhe) efémeras que nada mais fazem senão resumir toda uma existência e uma cultura humana, a dor, a morte. Круг второй é um filme sublime, uma obra-prima sem contestação. Assim se faz o bom cinema.

14 de abril de 2011

(Carregar na imagem para aceder ao meu texto sobre o filme publicado na rubrica mensal da Tertúlia de Cinema).

13 de abril de 2011

Nunta Mutã (2008)
Horaţiu Mǎlǎele

Tragicomédia hilariante, fábula descendente do cinema de Kusturica, Nunta Mutã é um tour de force que maravilha o espectador. Coisa sem facilitismos, sem clichés, sem artifícios, sem sentimentalismos desnecessários. Filme da liberdade, história trágica duma pequena localidade romena em tempo de ocupação soviética, reclamação da liberdade, grito de revolta pela opressão e pelas atrocidades soviéticas. E é isso que me agradou tanto em Nunta Muntã, a sua capacidade de contar uma tragédia de forma cómica, visitando o non-sense, o surreal, a obscuridade. Está lá isso tudo e sempre fugindo da dramatização, da sensibilização comum, do apelo à choradeira mas nunca esquecendo a crueldade da história. Grande filme.

A minha última aquisição

11 de abril de 2011



Genial.
Mossafer (1974)
Abbas Kiarostami

Mossafer, retracto cuspido do realismo, estória simples dum miúdo que não quer nada com os estudos e só pensa no futebol. Da simplicidade nasce a irremediável aventura do tal puto que tudo faz para arranjar dinheiro e ir a Teerão ver a selecção iraniana. O que interessa, ou o que é realmente importante nesta história de ilusão infantil é a forma como Kiarostami (e forma que viria a “cunhar” o seu cinema) relaciona aquele realismo com o seu lirismo, coisa bela não só nesse relacionamento como no poder das imagens e da sua crueza. O que interessa é que esse lirismo em comunhão com o realismo acentua não só toda a noção daquele “mundo” em que aquele miúdo vive como a própria percepção deste nos seus actos, coisa culminada naquele final assombroso (e onírico) que diz tanta coisa. Grande Kiarostami.

10 de abril de 2011

Terra Estrangeira (1996)
Walter Salles

Depois de ter apreciado (e muito) o Central do Brasil seguiu-se este Terra Estrangeira, coisa que me deixou bastante desiludido. Terra Estrangeira é um mainstream brasileiro filmado em Portugal e no Brasil que mete fastio, ou seja, quer embelezar (o que consegue, claro) com a fotografia a preto e branco, alguns planos e enquadramentos bem conseguidos, mas depois revela-se um filme inócuo quando quer ser o contrário, começa por explorar a crise brasileira do inicio dos anos 90 e o seu impacto naquela mãe e filho para depois se desenvolver como um thriller ou como um noir muito reles e “à lá Hollywood actual”. Vazio, coisa previsível.

9 de abril de 2011

Brutalíssimo.
Ghost Dog - The Way of The Samurai (1999)
Jim Jarmusch

Ghost Dog é um filme negro, com tanto sentimento quanto metodismo, frio, solitário, minimalista, coisa própria de Jarmusch. Filme de movimentos, de olhares, de acções, de planos e enquadramentos, de códigos. Ghost dog é um noir, ou um noir moderno, filme de crime e de códigos criminosos, coisa brutal na sua tranquilidade total. Puro Jarmusch, quem conhece o cinema de Jarmusch sabe que Ghost Dog é puro Jarmusch, está lá tudo a que nos habituou. E Whitaker tem aqui muito provavelmente a sua melhor interpretação depois da de The Last King of Scotland.