A propósito deste post Mogambo e Donovan’s Reef são dois objectos tão semelhantes e tão distintos que até perturba. Mogambo, comédia romântica que vai buscar toda a energia, beleza, sensualidade a Ava Gardner e a Grace Kelly (por mais que as paisagens o reforcem são elas que triunfam) e Donovan’s Reef, também comédia romântica onde o racismo, o preconceito e a religião se passeiam. Em ambos, os cânticos, o sentido humanístico, o amor. Ford.
Ophüls, cineasta do travelling, cineasta do virtuosismo da mise-en-scène, cineasta do amor, da paixão, do romance, cineasta da mulher. Ophüls, cineasta da magnitude da aristocracia, da fome da liberdade interior ou da necessidade interior da mulher em amar, em sair e aventurar-se no amor, fora das convenções sociais, na constante procura da felicidade, da paixão, do fogo da paixão, coisa brutal e ardente que Ophüls parece dizer que só as mulheres o necessitam (ou o buscam), o amor louco, a vontade de abandonar o passado ou o marido ou o luxo ou a posição social pelo amor, coisa que a mulher está disposta e o homem não, porque o homem é mais racional, mais controlado e mais sóbrio. A embriaguez do amor que irrompe bruscamente na mulher. Ophüls, cineasta da brutalidade e da fogosidade da paixão.

De Les Biches digamos que é filme que tudo deve a Hitchcock, a Stahl, a Sirk, a Ray, a Hawks e a Ford, digamos que é filme de todo o esplendor classicista americano em pleno berço da nouvelle vague, mas essencialmente é filme que tudo deve ou tudo quer dever ou homenagear a Preminger e acima de tudo ao seu Bonjour Tristesse. São planos e enquadramentos e sombras e crepúsculos a rasgar o ecrã, ode ao classicismo americano e a essa monstruosidade de filme que é Bonjour Tristesse.

(...) O filme abre, é intermediado e termina com planos muito gerais da Natureza em movimento, como o campo sobre um grande céu enevoado ou a seara que serpenteia ao ritmo do vento. Todas as imagens, cuja minuciosa composição fazem com que se entenda um detalhado perfeccionismo na «mise-en-scène» com a mão de Dovzhenko, contêm, em si, não só um forte embate visual, como também um sentido metafórico facilmente assimilável. Referimo-nos, por exemplo, aos diversos planos que contêm girassóis, instituída como flor nacional da Ucrânia, e como o realizador os conjuga com o primeiro sucedimento da obra: a morte de um velho na família central da narrativa, Semion. Antes de falecer, pede algo para comer, trinca em felicidade pueril uma maçã (fruto que o rodeia às dezenas no leito da sua morte), olhando para as crianças que ao seu lado se divertem, e despede-se confirmando aos restantes membros do grupo, em contentamento sereno, que jamais viverá, olhando para cima. O realizador aqui toma a decisão de cortar o plano, mais uma vez, para os girassóis caídos, como se encontrassem em contra-campo e o observassem como seguem o Sol, e que aqui adquire uma dimensão que transcende o simples símbolo da pátria: esta transição significa, tão-somente, o reconhecimento do colectivo que abarcou a sua simples existência de camponês (Petro, seu companheiro, descreve com fervor que «durante 75 anos, ele arou a terra com gado» e que, por isso, deve ser agraciado com «uma medalha»).
Flávio Gonçalves in O Sétimo Continente
*Aconselha-se a leitura do texto integral aqui.
Öszi Almanach é Tarr tal e qual o Tarr de Sátántangó ou de Werckmeister Harmóniák distanciando-se no entanto no pormenor de ser a cores (e que cores!) ao invés do habitual preto e branco que pontua os seus filmes mais aclamados, mais concretamente a partir de Karhozat.