Melville veio buscar tanta coisa aqui, mas tanta!

De Les Biches digamos que é filme que tudo deve a Hitchcock, a Stahl, a Sirk, a Ray, a Hawks e a Ford, digamos que é filme de todo o esplendor classicista americano em pleno berço da nouvelle vague, mas essencialmente é filme que tudo deve ou tudo quer dever ou homenagear a Preminger e acima de tudo ao seu Bonjour Tristesse. São planos e enquadramentos e sombras e crepúsculos a rasgar o ecrã, ode ao classicismo americano e a essa monstruosidade de filme que é Bonjour Tristesse.

(...) O filme abre, é intermediado e termina com planos muito gerais da Natureza em movimento, como o campo sobre um grande céu enevoado ou a seara que serpenteia ao ritmo do vento. Todas as imagens, cuja minuciosa composição fazem com que se entenda um detalhado perfeccionismo na «mise-en-scène» com a mão de Dovzhenko, contêm, em si, não só um forte embate visual, como também um sentido metafórico facilmente assimilável. Referimo-nos, por exemplo, aos diversos planos que contêm girassóis, instituída como flor nacional da Ucrânia, e como o realizador os conjuga com o primeiro sucedimento da obra: a morte de um velho na família central da narrativa, Semion. Antes de falecer, pede algo para comer, trinca em felicidade pueril uma maçã (fruto que o rodeia às dezenas no leito da sua morte), olhando para as crianças que ao seu lado se divertem, e despede-se confirmando aos restantes membros do grupo, em contentamento sereno, que jamais viverá, olhando para cima. O realizador aqui toma a decisão de cortar o plano, mais uma vez, para os girassóis caídos, como se encontrassem em contra-campo e o observassem como seguem o Sol, e que aqui adquire uma dimensão que transcende o simples símbolo da pátria: esta transição significa, tão-somente, o reconhecimento do colectivo que abarcou a sua simples existência de camponês (Petro, seu companheiro, descreve com fervor que «durante 75 anos, ele arou a terra com gado» e que, por isso, deve ser agraciado com «uma medalha»).
Flávio Gonçalves in O Sétimo Continente
*Aconselha-se a leitura do texto integral aqui.
Öszi Almanach é Tarr tal e qual o Tarr de Sátántangó ou de Werckmeister Harmóniák distanciando-se no entanto no pormenor de ser a cores (e que cores!) ao invés do habitual preto e branco que pontua os seus filmes mais aclamados, mais concretamente a partir de Karhozat.

Nos minutos iniciais de Arsenal (como em quase todo o filme) deparamo-nos com uma sucessão de imagens (em movimento) metafóricas que aludem à destruição e ao caos da guerra, à degradação quer psicológica quer física que a guerra provoca, à discrepância entre proletários e capitalistas e ao abuso do poder destes. A guerra vil e cruel, coisa mortífera que provoca entre outras coisas a orfandade da pátria (através da dos humanos) que resulta da iniquidade do capitalismo e posteriormente do sentido revolucionário ou reaccionário do proletariado resultante de um ideal ou da opressão sofrida. Por isso, Dovzhenko subintitula o filme como Uma história épica revolucionária. A primeira grande guerra e as consequências desta no povo são o ponto de partida de Arsenal, os tais minutos iniciais a isso (e não só) aludem, mas é à repressão (outra das alusões iniciais) sofrida pelo povo que Dovzhenko quer chegar. Porque a revolta dá-se por isso, porque aquele povo (e por povo entenda-se o proletariado e a facção agrícola) está mergulhado numa apatia ou numa espécie de transe social que resulta no caos e na miséria provocada não só pela guerra mas também pelo capitalismo e pela sua manipulação socioeconómica. E Dovzhenko cria simbolismos visuais e poéticos da devastação da guerra, da opressão, do delírio social em que aquele povo se encontra.




3 Godfathers, western lírico e bíblico, filme sagrado como aquela criança o passa a ser, filme do deserto longínquo e bravio que devora e consome aqueles homens, filme da redenção e da remissão, filme monumental. Ford o fazedor de quimeras, cineasta do crepúsculo mais belo que alguém já filmou em cinema, cineasta dos cânticos e da honra do homem, cineasta bíblico e da compaixão humana.