6 de janeiro de 2011

Novamente sobre o novo Aronofsky, aquilo que me desiludiu não foi a (sua) forma de fazer cinema, os tais planos ultra-rápidos, a tal veia dos videoclips. Isso não é defeito, bem pelo contrário. Não, isso já no Pi o fazia. O que me desilude em Black Swan é a pretensão existente, a confusão de géneros que se cria (a desnecessária, ilusória e absurda recorrência ao ambiente obscuro e de tensão na aproximação do thriller psicológico), a euforia com que se filma que não é correspondida pelos actores (excepto Natalie Portman). Analisemos:

O que Black Swan conta é a história duma rapariguinha que finalmente (após muitos anos de trabalho, dedicação e obsessão ao ballet) consegue o papel principal (o dos cisnes branco e negro) na peça de Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes. Até aqui tudo bem. O problema chega com a atribuição duma ambiguidade e complexidade ao conflito interior em que Nina incorre. E isto porque aquilo em que Aronofsky mergulha é numa salgalhada de misticismos e confusões de géneros (thriller, drama, romance), onde os seus esforços se dirigem para uma relação intensa e vulgar entre a peça e a evidente demência de Nina. A interpretação do Cassel deixa muito a desejar. Não há profundidade nas personagens, ao contrário do que existe com o conflito interior que assola Nina, o qual é exaustivamente explorado e absurdamente relacionado com a peça de Tchaikovsky. Porque esta ligação que Aronofsky atribui à peça e a Nina vem trazer uma obscuridade alheia à história, vem trazer o suspense, o thriller numa história que assim não o reclama. Pelo menos é assim que eu vejo o filme. Tanta euforia para quê? Toda aquela confusão mental esmiuçadinha para quê? O filme não é mau, donde veio até não está nada mau. Mas para mim nada mais que isso.
Absurdistan (2008)
Veit Helmer

A muitas léguas de Tuvalu, Veit Helmer parece querer neste Absurdistan retomar a fórmula do seu grande filme. Mas o que acontece é que Absurdistan não passa disso mesmo, duma tentativa falhada (embora pudesse resultar muito pior) de revisitar (ou reinventar) a tal fórmula que em Tuvalu resultou tão bem. Absurdistan passa por ser uma fábula romântica e cómica sobre um país perdido no mapa (narrada pelos dois protagonistas criando uma ideia (logo à partida) de final feliz). Utopia hilariante que se passeia por ali, tentativa irrisória (a exacerbada recorrência à voz-off do(s) narrador(es) e à consequente (embora escassa) ausência de diálogos entre os personagens) de dar a máxima atenção à mímica, aos gestos e aos comportamentos. Perseguição fugaz de um sentido insólito, influência tenaz de Kusturica. Absurdistan é um filmezinho engraçado.

3 de janeiro de 2011

Buried (2010)
Rodrigo Cortés

O que Rodrigo Cortés quer fazer é aprisionar o espectador, fazê-lo sentir a angústia do enclausurado. E consegue. Porque estamos lá, naquele mesmo espaço que Paul, porque nunca saímos dali. Porque é esse espaço e o condicionamento a esse mesmo espaço que cria todo o ambiente claustrofóbico e angustiante do filme. Esse é o grande trunfo de Buried. E é isso que nos interessa. Quero lá saber da denúncia política, quero lá saber da desumanização dos terroristas e do governo americano (e com isto não estou a depreciar o filme, bem pelo contrário). O que me interessa ali (a mim) é o espaço, o enclausuramento, a capacidade de criar em nós aflição e horror psicológico (embora o tema seja o grande causador disso). O que me interessa ali é Paul (apesar do actor não ser grande coisa) e a sua angústia, a forma como Cortés a filma (ainda que se vislumbre de vez em vez a necessidade de rebuscar tudo), a proximidade entre o espectador e o personagem. Buried é indubitavelmente um grande filme.
Obrigado Victor.

Black Swan (2010)
Darren Aronofsky

O problema do Aronofsky é querer intelectualizar tudo, é querer transcender a porcaria dum objecto qualquer. Já o fez antes e volta a fazê-lo. Esse é o grande mal do homem. É querer (quase) divinizar o ser humano e a história que conta. Quer estar próximo do ser humano, fazê-lo sentir-se. Mas falha. Porque há ali muito pretensiosismo e muito simbolismo desnecessário. Há ali muita exaltação, muito delírio visual e sonoro, muita ornamentação, ambiente forçado, desnorte de um género. Também há competência é claro. Imponente, muito bem filmado e uma grande Natalie Portman (é o filme que o deve a ela). Mas é pouco.

The Ballad of Cable Hogue (1970)
Sam Peckinpah