10 de outubro de 2010

Kynodontas - Canino (2009)




Kynodontas é do mais absurdo que já vi em cinema. Mas não invalida a qualidade inerente a esse absurdo. Mundo utópico (atinge até o ridículo) aquele em que aqueles pais assentam a sua ideologia de uma educação livre de qualquer sentido pecaminoso assente no rigor e exclusão social. Sim, há uma metáfora irrisória com o Jardim do Éden. Metáfora essa que parece querer criticar essa passagem bíblica. O exterior como lugar perverso, a super-protecção resultante do super-paternalismo, a tal caverna alegórica de que Luís Miguel Oliveira falava. Sim, Oliveira tem razão em muita coisa. E por isso (e por achar que ele já disse tudo) aqui fica:

“Giorgios Lanthimos filma os gestos e os sinais que compõem um regime familiar concentracionário num registo seco que evita a retórica demonstrativa de Michael Haneke

Os gregos têm queda para alegorias, como bem sabemos. E "Canino", não sendo o mais platónico filme do mundo, é dos mais cavernícolas que vimos nos últimos tempos. Felizmente, Giorgos Lanthimos filma mais a caverna do que a alegoria - e o seu registo muito "matter of fact", muito directo, às vezes muito seco, impede que "Canino" se deixe invadir pelo peso retórico e demonstrativo que frequentemente se encontra nos filmes de Michael Haneke (a quem imaginamos facilmente a filmar uma história parecida, e é outro adepto do tipo de "negrume civilizacional" que "Canino" explora).

A situação é simples, mas não imediatamente perceptível. Começamos, aliás, por uma cena em tom de poesia absurdista: três miúdos, ou enfim, três jovens adultos (um rapaz e duas raparigas), num ambiente muito branco, ouvem uma espécie de "dicionário gravado" que para cada palavra propõe uma definição errónea mas, nalguns casos, estranhamente bonita - ficamos assim a saber que naquele universo uma carabina é "um belo pássaro branco" (assim como, mais tarde no filme, daquilo que a legendagem escolheu traduzir por "pachacha" será proposto como entendimento que se trata de uma "luz"). O que se passa, na verdade, é que um pequeno industrial grego (sobre cuja saúde mental nunca seremos elucidados - tudo é mesmo "matter of fact") decidiu criar e manter os seus três filhos numa "caverna" protegida do exterior. A caverna é a casa familiar, e o exterior é o mal absoluto, o perigo constante, a ameaça total. Um mundo de ficção, ritualizado e codificado como um universo mítico (é aqui que entram as abundantes referências aos "caninos", sejam eles dentes ou, de facto, canídeos).

Lanthimos descreve este "mundo" - espaço concentracionário, espaço totalitário - a partir das ficções que o sustentam e das acções que lhe garantem a ordem. A presença dos aviões é conspícua, sejam os que cruzam os céus sejam os aviões de brinquedo: o "medo permanente" que é instilado aos miúdos tem pontos de contacto evidentes com o quotidiano do mundo ocidental pós-11 de Setembro, lá fora o caos e "breaking news" sempre que alguém encontra um sapato desirmanado num aeroporto qualquer. A alegoria do paternalismo do poder político - e do seu reverso, a infantilização dos súbditos - expande-se por aqui. Lanthimos filma os gestos e os sinais que compõem este "regime", com um sentido de humor certeiro: uma canção de Frank Sinatra ("Fly me to the Moon") ouvida em família com o pai a fazer "tradução simultânea" (e na versão traduzida, Sinatra diz "que se porta bem" e, por isso, "o pai gosta dele").

Mas filma, sobretudo, a sua decomposição, o avançar do caos. As brechas que se abrem na relação dos miúdos com o "regime" - e que se abrem pelo desejo (o sexo, que começa por ser "organizado" e convencional, e se vai tornando "desregulado"), pela curiosidade (de ver o que está lá fora), pela vontade (de serem adultos), pela dúvida (de que as palavras não significam de facto o que o lhes dizem). Toda a força da sua descontrolada humanidade virada contra a educação e os condicionamentos: a Grécia anda tensa, como também sabemos.”

Luís Miguel Oliveira


9 de outubro de 2010

Le Petit Soldat (1960)




















Le Petit Soldat é um filme político até às entranhas do tutano. E visionário. A merda que se passa no Iraque e no Afeganistão não é senão o mesmo que se passou na altura na Argélia. E Godard faz um filme anti-guerra, anti-revolucionário, absurdo. Mescla de noir com romance, Le Petit Soldat é o Godard work in progress de autor. E percebe-se claramente o tal progresso relativamente a À Bout de Souffle. Porque aqui a sua preocupação nos cortes experimentalistas e narrativas fragmentadas desvanece-se. Não, aqui Godard inicia o tal progresso no seu cinema de autor. Le Petit Soldat é um esquisso do que Godard faria depois. Filme de ideais (ou da falta deles?), mas, principalmente, filme sobre o amor. E Karina é o centro do “mundo” em Godard.

7 de outubro de 2010

Vivre Sa Vie: Film en Douze Tableaux (1962)














Ontem revi Vivre Sa Vie e, mais uma vez, chega a cena do filme do Dreyer e é como se não existisse mais nada para além de nós e o filme (e o filme dentro do filme). Arrebatador. Karina é a grande causadora dessa sensação que essa cena transmite, as suas lágrimas, a sua dor que, embora desconhecida até a esse momento, se torna similar e compatível com a de Falconetti. O mundo do cinema que a prende (ficamos depois a saber). Mas o laço que une Karina com Falconetti é mais do que essa dor surda e muda que cada uma transporta, é a tragédia que cada uma (por razões diferentes) enfrenta. São os sonhos perdidos de Karina e os credos de Falconetti. Porque além de toda a incomunicabilidade na qual o filme se debruça (e da qual resulta todo o trajecto e destino de Nana), é curioso ver que Godard “põe tudo no mesmo saco”, ou seja, fala da mulher e não da puta ou da santa. Não sei se me faço entender…
Bem, hoje é a vez do Le Petit Soldat que nunca vi.

5 de outubro de 2010

Une Femme Est Une Femme (1961)







A questão é posta já perto do fim por Émile (Jean-Claude Brialy), “não sei se isto é uma comédia ou uma tragédia, acima de tudo é uma obra-prima”. Antes de mais, grande Godard. Depois, eu diria musical. Mas acima de tudo, um filme. Porque é o que Godard não quer que o personagem se esqueça, porque toda a revolução (liberdade) cinematográfica, narrativa e visual que Godard completa (tudo mergulhado num experimentalismo mais ousado que À Bout de Souffle) é para isso, para que o espectador nunca esqueça que está a ver um filme. Tanto Brialy como Karina estão constantemente a falar para a câmara, para o espectador. Nunca tinha visto Une Femme Est Une Femme e adorei. Compreenda-se todo o seguimento que dá a À Bout de Souffle e antecede o Vivre Sa Vie, toda a revolução estética que Godard assume no seu cinema da década de 60. E, resumindo, Une Femme Est Une Femme é uma homenagem aos musicais de Hollywood. Sobretudo, uma homenagem ao cinema. Grande Godard.