20 de setembro de 2010

Mary and Max é muito provavelmente, a par do Waltz With Bashir, a melhor animação que vi nos últimos anos.

18 de setembro de 2010

Jerichow (2008)













Num filme (thriller psicológico ou introspectivo) que começa num funeral e acaba com um suicídio, o mais importante (e o que realmente interessa) a realçar é a destreza de Petzold (facto que já tinha comprovado em Gespenster) em estruturar e desenvolver tanto a acção narrativa como as personagens. Petzold, de certa forma, faz-me lembrar Aki Kaurismäki. Isto, porque constrói em torno das suas personagens e das suas inter-relações uma fria e incómoda atmosfera. E isso é uma das razões que fazem de Petzold um talento escondido do mundo (ou pouco conhecido). Triângulo amoroso que dá vida a um jogo psicológico, onde Petzold se interessa mais por nos cativar relativamente ao que estarão a pensar e a planear do que propriamente pelo que fazem os personagens. Jerichow é sobre o recomeço e sobre o amor. É, sobretudo, um filme extremamente bem filmado (tem planos fabulosos), naturalista e empenhado nas expressões corporais. Muito bom filme.

Au Hasard Balthazar (1966)



















Numa terra onde a fé não se apresenta mais que uma fantasia de crianças e num mundo sem espaço para Deus, a humanidade entrega-se a si mesma, tomando toda a responsabilidade pelo seu fatídico destino. E Bresson não hesita, nesta simples alegoria lírica, em esclarecê-lo sob o olhar protagonista de um burrinho chamado Balthazar, santificado e divinizado até onde seria possível. Ver o naturalista e ascético Au Hasard Balthazar é, duplamente, sentir poesia em estado bruto e redefinir a perspectiva sobre a nossa própria existência. Isto porque a jornada “dúmbica” do burro, que assiste, em paralelo com as narrativas sociais que confluem com a dele, não é mais que uma contemplação do horror e crueldade humanas, do absurdo a que se fica sujeito desde a nascença. Mas o espectador não é livre de culpa. O espectador é parte, diria quase activa, daquele sofrimento e de toda aquela ridicularização e barbaridade, muito simplesmente por deixar que a desumanização prossiga com uma aparente e vil naturalidade. E a comoção que se nos dá, e as lágrimas que se deixam cair naquele esperado fim com o Bem rodeado do rebanho do Mal, tão certo como o correr de um rio, não são mais que os evidentes sinais de que é preciso, com urgência, rever a nossa fé, o nosso destino, a nossa estrada e o nosso final. Sim… grande, grande filme.

em O Sétimo Continente por Flávio Gonçalves


*E este post "acelerou" o meu visionamento do filme.