
Em Parajanov (fala-se no seu cinema é claro) existe, acima de qualquer simbolismo e rudimentarização (se é que tal possa ser) que haja, uma forma muito própria (embora muito similar a Pasolini) e peculiar de fazer cinema (leia-se arte). Uma forma muito rude e artesanal de contar uma(s) história(s) sempre com o intuito de algum tradicionalismo, ritualização ou primitivismo inerente. A(s) história(s) por si só se auto-define(m) na sua vertente “mais ou menos” rude (e hermética), seja a partir do aspecto visual que nos advém de todo o cenário/espaço em que as personagens se envolvem, seja a partir dessas mesmas personagens e suas respectivas vestes. Assim, podemos tratar Parajanov como um esteta muito próprio e particular (novamente Pasolini como referência similar, muito similar) no qual se denota essa rudimentarização exacerbada como estrutura essencial (no aspecto visual) para a concretização do seu cinema. Posteriormente vem todo o simbolismo ou alegorismo que esse aspecto visual transparece. E daí advém todo o objecto do seu cinema.
O que acontece em
Sayat Nova (em português
A Cor da Romã) é essa exploração de toda a rudimentarização, primitivismo, alegoria e sobretudo misticismo existente na história do poeta Aruthin Sayadin. Avançando no tempo desde a infância do poeta até à morte deste, Sayat Nova parte do pressuposto de se retractar essencialmente, ao invés duma biografia convencional, o interior do poeta. Por isso a constante e imutável alegoria aos usos e costumes da região (actual Arménia) e respectiva época do poeta. Isto porque a isso se deve o que o poeta é (foi). Em causa (objectivo) está a narração da vida do poeta arménio. Mas
Sayat Nova revoluciona pela “tal” estética visual que a Parajanov é própria. Sucessão de imagens alegóricas e líricas alusivas aos versos do poeta, abandono de convencionalismos quer estéticos quer narrativos e recorrência sistemática e unicamente ao plano fixo. Abundância de lirismos e metáforas visuais referentes à história e tradições da nação do poeta. Resultante disso está uma obra visualmente inigualável, está, acima de tudo, uma obra-prima que ultrapassa as barreiras do cinema tal qual o conhecemos. Assim (e por isso a extrema dificuldade em ver isto para quem está habituado ao cinema
hollywoodesco) a estranheza na forma de aprimorar as imagens como que as expondo tentando transmitir a mensagem/objecto “camuflada” nas “tais” alegorias a que incessantemente recorre. Alegorias essas que transmitem certos ritos e tradicionalismos da época e da região em que o poeta está inserido, sempre aludindo visualmente a uma poesia (à sua poesia, a do poeta), relacionando época/sociedade/usos e costumes com a poesia/individuo e sua formação social/intelectual/espiritual. Meio social como base para essa formação e desenvolvimento quer individual quer relativo à poesia de Sayadin. É a procura de Parajanov em analisar os factores condicionantes ou/e determinantes para essa formação. A compreensão do Ser (o poeta).