15 de agosto de 2010

Vredens Dag - Dia de Cólera (1943)













Vredens Dag remete-nos a um mundo obscuro e tenebroso de outrora, a um mundo de medos e de constantes repressões, ou seja, ao tempo da Inquisição. E na sua essência, Vredens Dag ou Dia de Cólera fala-nos de um amor proibido e ambíguo, fala-nos de uma mentalidade reprimida pela religião e por tudo o que é inerente a isso.

Vredens Dag é um filme negro, obscuro. Nada que a Dreyer seja estranho. Mas há em Vredens Dag algo comum (além de toda a obscuridade presente em quase todas as suas obras) a todo o cinema de Dreyer, a fé. E a fé de Vredens Dag é a mesma de Ordet. Porque tanto em Vredens Dag como em Ordet, Dreyer separa a fé da religião. E tanto em Ordet como neste Vredens Dag o obscurantismo que existe, existe na religião. A hipocrisia da igreja católica e do puritanismo cristão.

Mas sobretudo a expressividade de Lisbeth Movin, o seu olhar, a sua face iluminada (para isso tudo depende das sombras assombrosas de Dreyer, do enquadramento da câmara, dos movimentos de câmara de Dreyer, da sua genialidade). E Lisbeth Movin não é (nem tem a força expressiva) Falconetti, mas mesmo assim é assombrosa. Grande Dreyer.

11 de agosto de 2010

Sanxia Haoren - Still Life (2006)






















Sanxia Haoren é poderosíssimo. Território de mestres (Tarkovsky, Tarr, Fassbinder, Angelopoulos, Ford…) revisitado. Falo da arte de filmar que Zhang Ke Jia revela, da mise-en-scène que me surpreendeu e conquistou completamente. Sanxia Haoren é inaudito nesse aspecto, repleto de planos-sequência absolutamente fenomenais (o do início é formidável) e com uma contemplação que evoca os quatro mestres referidos acima (Ford excluído nesse aspecto). Minimalista como Bresson o seria. Visualmente e sonoramente arrebatador. Lento e atento a cada detalhe com uma profundidade de campo à Ford. E lembrei-me de Ceylan.

Além dessa arte de filmar tão evidenciada, há que salientar (como diria aqui o João) o sentimento de perda que o filme extravasa. O espaço, a relação espácio-temporal que se assume aqui é comum a uma China em desenvolvimento. O progresso. Isso está bem vincado durante o filme todo. Aquela gente, aqueles prédios em desconstrução continua, aquele mundo a simbolizar o fim do comunismo e o início do capitalismo e consumismo. Sim (voltando ao João), aquelas imagens trazem uma certa nostalgia, aquele mundo decrépito que aos poucos se vai abatendo e sendo substituído pela “nova China”. Esses prédios são as memórias e as suas demolições trazem o esquecimento. A melancolia dessa nova China. E que bela China que Zhang Ke Jia filma.

O mais importante em Sanxia Haoren é a passagem do passado para o presente, o que era e o que é, o que foi e o que será. O que o cineasta quer é reflectir no fim e início de algo. Uma nova vida, uma nova China. Por isso as duas histórias do filme tão similares a toda a temática fundamental da obra. A evolução. Porque esta evolução dá-se não só nesta China que Zhang Ke Jia quer mostrar como também naquele casamento já sem sentido ao qual aquela mulher põe termo. E o mesmo para aquele homem que busca incessantemente pela mulher e a filha que já não vê há mais de dez anos. E no meio destas duas histórias está um olhar sobre as consequências do progresso, está a reflexão de como essa evolução afectou a vida das pessoas. E daí essa estranha nostalgia que Still Life emana, o tal sentimento de perda comum às personagens e à realidade dessa China renovada.

Zhang Ke Jia filma uma China melancólica e nostálgica. Mas acima de tudo, filma de forma bela e poética. E por mais que o cineasta consiga criar duas histórias que se complementam perfeitamente, por mais que se faça usar dum simbolismo permanente nesse olhar melancólico sobre a sua China, o mais importante em Sanxia Haoren é a sua mise-en-scène e toda a contemplação e naturalismo inerente. Poderosíssimo é mesmo a palavra certa. Grande filme.