11 de agosto de 2010

Sanxia Haoren - Still Life (2006)






















Sanxia Haoren é poderosíssimo. Território de mestres (Tarkovsky, Tarr, Fassbinder, Angelopoulos, Ford…) revisitado. Falo da arte de filmar que Zhang Ke Jia revela, da mise-en-scène que me surpreendeu e conquistou completamente. Sanxia Haoren é inaudito nesse aspecto, repleto de planos-sequência absolutamente fenomenais (o do início é formidável) e com uma contemplação que evoca os quatro mestres referidos acima (Ford excluído nesse aspecto). Minimalista como Bresson o seria. Visualmente e sonoramente arrebatador. Lento e atento a cada detalhe com uma profundidade de campo à Ford. E lembrei-me de Ceylan.

Além dessa arte de filmar tão evidenciada, há que salientar (como diria aqui o João) o sentimento de perda que o filme extravasa. O espaço, a relação espácio-temporal que se assume aqui é comum a uma China em desenvolvimento. O progresso. Isso está bem vincado durante o filme todo. Aquela gente, aqueles prédios em desconstrução continua, aquele mundo a simbolizar o fim do comunismo e o início do capitalismo e consumismo. Sim (voltando ao João), aquelas imagens trazem uma certa nostalgia, aquele mundo decrépito que aos poucos se vai abatendo e sendo substituído pela “nova China”. Esses prédios são as memórias e as suas demolições trazem o esquecimento. A melancolia dessa nova China. E que bela China que Zhang Ke Jia filma.

O mais importante em Sanxia Haoren é a passagem do passado para o presente, o que era e o que é, o que foi e o que será. O que o cineasta quer é reflectir no fim e início de algo. Uma nova vida, uma nova China. Por isso as duas histórias do filme tão similares a toda a temática fundamental da obra. A evolução. Porque esta evolução dá-se não só nesta China que Zhang Ke Jia quer mostrar como também naquele casamento já sem sentido ao qual aquela mulher põe termo. E o mesmo para aquele homem que busca incessantemente pela mulher e a filha que já não vê há mais de dez anos. E no meio destas duas histórias está um olhar sobre as consequências do progresso, está a reflexão de como essa evolução afectou a vida das pessoas. E daí essa estranha nostalgia que Still Life emana, o tal sentimento de perda comum às personagens e à realidade dessa China renovada.

Zhang Ke Jia filma uma China melancólica e nostálgica. Mas acima de tudo, filma de forma bela e poética. E por mais que o cineasta consiga criar duas histórias que se complementam perfeitamente, por mais que se faça usar dum simbolismo permanente nesse olhar melancólico sobre a sua China, o mais importante em Sanxia Haoren é a sua mise-en-scène e toda a contemplação e naturalismo inerente. Poderosíssimo é mesmo a palavra certa. Grande filme.

9 de agosto de 2010

Såsom i en Spegel - Através De Um Espelho (1961)




A que se remete um filme no qual do início ao fim se fala de uma doença sem se a identificar? De que obscurantismo tão presente e tão enérgico se faz Såsom i en Spegel?
Labirinto de perturbações, rito de loucura afável que oscila entre o real e o imaginário. Doença sem nome que projecta os fantasmas não só de Karin (espantosa Harriet Andersson) como os de todos os personagens. A Karin se revele toda a “face negra” de Såsom i en Spegel, objecto obscuro da mente humana, fantasma dos seus fantasmas. Caminhos tenebrosos pelos quais Bergman percorre Såsom i en Spegel. Estudo da loucura e da fé. Através De Um Espelho é uma obra marcante, filme de ápices na sua melancolia, na procura da verdade (ou direi antes realidade). Reflexão psicológica ou psiquiátrica de Bergman (à qual muito se inclinou na década de 60). Enquadramentos e sombras de uma beleza e perfeição só alcançável pelos “grandes”. Obra-prima.

6 de agosto de 2010

The Brown Bunny (2003)






The Brown Bunny é a dor filmada de forma desmesuradamente melancólica. Uma odisseia de sentidos onde abunda o sofrimento e a angústia do que foi e do que é, o passado e o presente. A eterna procura do que se perdeu e dificilmente se voltará a encontrar. O filme de Gallo é visceralmente explorador da violência psicológica resultante do choque traumático. À partida não sabemos o que se passou, Daisy abandonou-o e ninguém sabe dela. Ele procura-a incessantemente em todas as mulheres que encontra, em todos os lugares que passa. Mas Daisy não está lá. E o mistério adensa-se na contemplação da estrada, na beleza paisagística da mise-en-scène de Gallo. Desmesuradamente cru e frio é o filme de Gallo, uma estranha candura na procura da paz e do esquecimento. A culpa e a dúvida a assombrarem o pensamento. Os remorsos e a irreversibilidade. O amor. A morte. The Brown Bunny é um grande filme.