Aqui está uma obra de um país que pouco ou nada se conhece sobre cinema, a Geórgia. É o primeiro filme que vejo oriundo deste país e confesso que fiquei com vontade de ver mais.
“27 Missing Kisses” é uma história intemporal, é uma história sobre o amor, uma história da descoberta deste e sobretudo uma história sobre a adolescência. É a história de Sybilla (Nutsa Kukhianidze), uma jovem rapariga de 14 anos que vai passar o Verão a casa da tia e se apaixona por Alexander (Yevgeni Sidikhin), o pai de Mickey (Shalva Iashvili), um rapaz da mesma idade de Sybilla e que se apaixona por ela. Portanto, o argumento desta obra traz-nos um hipotético triângulo amoroso que é criado por estes dois adolescentes. Como é habitual, e não generalizando, as raparigas nesta idade desejam sempre homens mais velhos porque acham que já são crescidas e os rapazes da sua idade ainda são uns garotinhos, o que em parte é verdade. Nana Djordjadze soube explorar bem essa realidade nesta obra e aqui Sybilla é um excelente exemplo disso. Ela vai tentar de tudo para se entregar a Alexander, mesmo sabendo que Mickey gosta dela, mesmo quando este se declara vezes e vezes sem conta, ela vai sempre preferir Alexander e tentar mostrar a este que já é uma mulher e que pode e quer fazer o mesmo que as outras, ou seja, ter relações sexuais com ele. O filme é narrado por Mickey e começa com a explicação do título, os 27 beijos perdidos dos 100 que ela lhe prometeu.
As interpretações dos dois jovens são assombrosas e as aventuras de Veronica (Amaliya Mordvinova), a mulher de um tenente que, com a falta de relações sexuais com o marido as procura nos outros homens da vila, trazem um lado mais cómico ao filme.
“27 Missing Kisses” é uma tragicomédia deslumbrante que encanta. É uma maravilha ver cinema desta categoria.
Filme de estreia do japonês Shiota Akihiko, este "Gekkô no Sasayaki" (Sussurros ao Luar) é um filme controverso e provocador. Akihiko cria uma história de amor entre dois adolescentes que se desenvolve à base de jogos perversos e sádicos. O cineasta explora esse amor e essa descoberta sexual que à medida que o filme se desenvolve é transformado em obsessão. Hidaka (Kenji Mizuhashi) é apaixonado por Satsuki (Tsugumi), mas esta paixão é mais que uma simples paixoneta de adolescentes. Hidaka guarda no seu quarto fotografias das pernas e dos braços de Satsuki, meias e cuecas dela, etc., Hidaka é completamente obcecado por Satsuki e mesmo quando eles começam a namorar, que foi sempre o seu sonho, ele continua a não estar feliz e a necessitar de actos perversos e depravados como o de gravar o som de Satsuki na casa de banho. Satsuki gosta de Hidaka mas sonhava com um namoro normal, ir ao cinema, passear de mão dada, etc., mas quando descobre o grande segredo de Hidaka ela fica apavorada, confusa e magoada. Mas a verdade é que também ela, e, face à insistência de Hidaka em ser o seu escravo, o seu cão como lhe diz, continua a gostar dele. É para o tentar magoar, na esperança de se sentir melhor, que Satsuki começa a namorar com Uematsu (Kouta Kusano). É para lhe fazer ciúmes que Satsuki obriga Hidaka a vê-la fazer sexo com Uematsu.
Akihiko escreveu e realizou um filme que aborda um tema muito pouco consensual, a submissão, a depravação, a perversidade de um rapaz e o amor de uma rapariga que, de início, rejeita-o face a essa realidade, mas que, depois de muito tentar fugir, descobre que o ama independentemente da sua condição. Nada de excepcional, mas um bom filme.
Teresa Villaverde ocupa juntamente com Pedro Costa um lugar de grande destaque no cinema português. Arrisco-me até a dizer que estes dois cineastas nacionais são, depois de Manoel de Oliveira e de João César Monteiro, os cineastas mais talentosos e competentes do nosso país. “Transe” confirma todo esse estatuto que Teresa Villaverde já alcançou no cinema nacional. Nesta obra, a cineasta volta a trabalhar com a actriz Ana Moreira (de quem já expressei aqui no Preto e Branco a minha profunda admiração não só pelo seu talento como pela sua beleza estonteante), depois de a ter dirigido em “Os Mutantes” de 1998 e “Água e Sal” de 2001. Ana Moreira tem com este “Transe”, na minha opinião, a melhor interpretação da sua carreira, embora a Andreia de “Os Mutantes” continue a ser a minha personagem preferida. Mas, de facto, Ana Moreira consegue com a personagem de Sonia a interpretação mais brilhante da sua carreira. Ela fala russo durante quase o filme inteiro como se de uma russa se tratasse, ela encarna Sonia de tal maneira que a sua postura, a sua atitude e o seu olhar iluminam um filme negro e cruel de forma portentosa. Se olharmos para Ana Moreira e as interpretações deste “Transe” e “Os Mutantes”, é nos visíveis as semelhanças entre os dois papéis, onde existe dor, sofrimento, desespero, uma inadaptação ao meio envolvente, etc.
Mas, as semelhanças entre os dois filmes começam e acabam nas personagens de Ana Moreira e no factor sociedade em que Villaverde volta a reflectir. Enquanto em “Os Mutantes”, Teresa Villaverde explora uma revolta e uma inadaptação à sociedade, neste “Transe” a cineasta reflecte num tema mais cruel e obscuro da sociedade, o tráfico de mulheres e sua exploração para a prostituição. Enquanto o filme de 1998 se mostra cru, cruel e agressivo, “Transe” é um retracto ainda mais cruel, transcendente, elíptico, onírico/real e com uma conotação defensora do sexo feminino, da sociedade actual europeia.
É impossível não assemelhar os primeiros cinco minutos do filme, nomeadamente a cena do gelo a partir-se, não só pela estética visual mas também pela linguagem russa, ao cinema de Tarkovsky, em particular ao seu “Stalker”.
“Transe” é a história de uma rapariga russa, Sonia, de vinte e poucos anos, que parece estar cansada de uma miséria, solidão e angústia material que a faz abandonar o filho, que está impedida de ver, o amigo e a irmã que é a única que lhe dá abrigo e apoio emocional. Numa procura de um futuro radioso, Sonia decide emigrar. Alemanha é o destino, onde ela encontra trabalho numa oficina, mas subitamente é raptada e levada para Itália e posteriormente para Portugal. A partir do momento em que a levam para Itália, Sonia vai iniciar uma viagem, quer física quer psicológica e emocional, onde a dor, o sofrimento, a humilhação e a crueldade duma realidade obscura como é o tráfico e a prostituição das mulheres abunda. Mas Sonia resiste, Sonia fecha-se no seu interior e aqui o título do filme não poderia ser mais adequado, pois essa atitude de Sonia é a personificação do transe, é esse estado psicológico que lhe dá forças para viver, é a sua maneira de lutar, é esse transe que a faz ter alucinações, que a faz anestesiar e alienar-se do “mundo” deplorável e miserável em que se encontra, do inferno a que foi forçada. É este transe em que Sonia se refugia que dá ao filme esse cariz onírico e elíptico. É este transe a força expressiva e narrativa do filme, duma transcendência que só Sonia compreende e adquire, dum estado psicológico que tenta apagar a dor de um estado físico, duma decadência e crueldade sem limites, e evitar assim a loucura, se não admitirmos que esse transe seja já um estado de insanidade mental.
“Transe” é um drama duro, frio, cruel e calculista que Teresa Villaverde filma magistralmente. É uma viagem pelos horrores de uma realidade obscura que não entra no nosso quotidiano, mas que infelizmente existe na nossa sociedade. Mais que um simples filme é arte, arte de fazer cinema, arte de reflectir na crueldade humana e na sociedade… na vida.
Obra-prima que com “Os Mutantes” faz dupla no cinema de Villaverde.
Ora aí está o trailer de apresentação do Festival Audiovisual Black & White que está mesmo mesmo quase a chegar. É já no dia 22 deste mês que tem início pelo sexto ano consecutivo o festival, para depois finalizar no sábado dia 25. Aqui fica o trailer.
Nuri Bilge Ceylan é já um nome conceituado no cinema turco e europeu. "Uzak", em português “Distante”, é para mim, depois de "Iklimler", a grande obra de Ceylan. Tal como em “Iklimler”, Ceylan filma Istambul de maneira brilhante e harmoniosa. Mais uma vez, ou melhor, pela primeira vez, já que "Iklimler" é posterior a este, Ceylan filma uma história em pleno Inverno, com muita neve. Este manto branco que cobre praticamente todos os espaços que Ceylan filma enriquece de forma substancial esta obra do turco. Atrevo-me a dizer que, embora o ambiente estranho e intimidador que é criado desde que Yusuf (Emin Toprak) chega a casa de Mahmut (Muzaffer Özdemir), o seu primo mais velho, esta neve e os planos que Ceylan filma tão primacialmente são a grande essência deste "Uzak". Mais uma vez, sendo já uma constante em todas as obras de Ceylan, ele conduz a obra por uma linha narrativa linear onde abundam as expressões corporais que nos revelam mais sobre o argumento do que os próprios diálogos. Lento e existencial, "Uzak" traz essencialmente uma conotação política, mais concretamente uma reflexão ao desemprego e ao capitalismo global. É sobre a democracia turca que Ceylan reflecte na obra, mas a crítica do cineasta atinge também os comportamentos sociais e existenciais de um indivíduo. Yusuf sente-se um estranho em casa do próprio primo, mas rejeita o hipotético regresso à sua terra onde existem menos hipóteses de arranjar emprego. Mahmut é um homem que vive em conformidade com o passado. Divorciado, frio e distante. Aliás, esta distância é partilhada pelos dois.
"Uzak" não tem a genialidade, nem narrativamente nem relativamente aos planos filmados, do espantoso "Iklimler", mas compreenda-se que "Iklimler" está num nível máximo da minha cinefilia. Portanto, feita a comparação entre aquelas que a meu ver são as suas obras-primas até ao momento, tenho que referir que "Uzak" é também uma obra-prima, embora inferior a “Iklimler”.