7 de fevereiro de 2009

Os 10 Melhores Filmes de Guerra

Esta lista visa nomear, a meu ver, os 10 melhores filmes de guerra (Vietname, 1ª e 2ª Guerra Mundial).
10 - La Vita è Bella (1997)

9 - La Grand Illusion (1937)


8 - The Pianist (2002)

7 - Platoon (1986)


6 - Lawrence of Arabia (1962)

5 - The Bridge On The River Kwai (1957)


4 - The Thin Red Line (1998)


3 - The Deer Hunter (1978)


2 - Full Metal Jacket (1987)


1 - Apocalypse Now (1979)




actualizada em 8/3/2011

5 de fevereiro de 2009

THE NEW WORLD


Terrence Malick é actualmente um dos grandes génios do cinema mundial. Por si falam as suas 4 obras-primas que mostram que quantidade não é sinónimo de qualidade. Datado de 2005, este “The New World” é uma obra muito poética e filosófica, à imagem da sua anterior obra “The Thin Red Line”. Tal como nessa obra, “The New World” está repleto de monólogos existencialistas e naturalistas. A mãe natureza tem aqui um papel fundamental na construção e desenvolvimento do filme e das personagens, principalmente as de John Smith (Colin Farrell) e de Pocahontas (Q’Orianka Kilcher). O filme traz-nos a história da fundação da cidade Jamestown, na Virgínia, enquanto nos narra o conto de amor entre o Capitão Smith e Pocahontas. A paixão entre estes dois seres é-nos apresentada por Malick como algo transcendental, sublime, mágico e puro. São muitos os momentos em que vemos os dois a tocarem-se, sempre acompanhados por uma calma abundante em toda aquela natureza, a mãe-natureza, que parece ser um deus e a verdadeira inspiração para estas duas almas apaixonadas e toda a civilização índia. O filme irradia reflexões e críticas à sociedade actual, mostra que apesar do não desenvolvimento económico e cultural que os índios teriam se ainda hoje fossem povo, a sua sociedade era mais feliz e tranquila que a nossa actualmente. Terrence Malick aproveita a história de Pocahontas para fazer uma reflexão sobre o que seria viver em conformidade com a natureza, o que seria se o desenvolvimento científico, económico, electrónico e químico não crescesse, o que seria se não existisse falsidade, ganância, inveja e mentira. “The New World” traz-nos uma história de amor impossível em tempos de descobrimentos, conquistas e guerras, mostra-nos o início do fim de uma civilização que, segundo Malick sabia viver melhor que a nossa sociedade actual.
Terrence Malick apresenta-nos o Capitão Smith como um homem agressivo, pensativo, observador, fascinado por aquele mundo onde abunda natureza, ar puro, tranquilidade e um sossego invejável. Smith parece ser um homem cheio de incertezas e em busca da sua própria definição como homem. Esta aventura vai defini-lo como ser humano, vai ajudá-lo a conhecer melhor as suas limitações, ambições e desejos. Fascinado por aquele “novo mundo”, Smith anseia construir uma civilização onde ninguém é pobre, onde não haja diferenças sociais, ganância, mentira e onde todos sejam iguais. Por isso, quando Pocahontas o salva e ele se depara com a vida dos índios, percebemos que Smith era capaz de abdicar das suas ambições em criar novas colónias e descobrir novas terras, em prol de uma vida sã, feliz, fiel, ao lado de Pocahontas, por quem se apaixona, naquele mundo sereno. Mas Smith é também, e acima de tudo, um homem confuso e céptico quanto à dádiva que parece ter recebido, o amor; o amor naquele mundo perfeito; o amor no paraíso.
Pocahontas é inteligente embora ingénua, pura, intrigada pelos visitantes. Apaixona-se por Smith e este amor é transposto para o ecrã como uma veneração de Pocahontas por Smith. Ela ensina-o a contemplar a natureza, a paz daquele mundo, aprende com ele a falar inglês e faz de tudo para que esse amor tenha sucesso, para que Smith se adopte aquela vida ou que a leve com ele para o seu mundo. Percebemos que Pocahontas está disposta a abandonar o seu povo devido ao seu amor por Smith.
Mas Smith não está disposto a renunciar a uma vida próspera e a um futuro risonho que ele anseia no mundo dos descobrimentos, em prol de um amor que nem ele está consciente de que exista. Percebemos no fim do filme que Smith ainda a amava, sempre a amou e só aí ganhou consciência de tal facto, bem como Pocahontas há muito percebera que Smith abdicara do seu amor pela carreira, quando lhe pergunta: “Encontras-te a tua Índia John? Deves encontrá-la.”, como que a reprová-lo pela sua escolha, mas a incentivá-lo a que não desista, pois embora ainda o ame, ela encontrou alguém que a ama incondicionalmente, que a ensinou a amá-lo e que a faz feliz. Terrence Malick traz-nos uma história de amor tão intensa e infeliz só superada pelo trágico Romeu e Julieta. “The New World” é uma obra-prima toda ela recheada de simplicidade. A banda sonora está constantemente em concordância com o filme, quando nos momentos mais belos e poéticos da obra em que a natureza e o crescimento do amor das duas personagens centrais do filme se misturam com temas musicais de Mozart e de Wagner. É um filme lindo, poético, filosófico e romântico. É, na minha opinião, uma das melhores obras cinematográficas deste novo século.

2 de fevereiro de 2009

The Wrestler



Esta mais recente obra de Aronofsky é uma das grandes injustiças da edição dos Óscares deste ano, mas não é surpresa a Academia de Hollywood ignorar um filme como “The Wrestler”, pois é uma produção independente e a violência que perfaz todo o filme nunca agradou a Hollywood.
“The Wrestler” traz-nos uma análise minuciosa do mundo do Wrestling. Mostra-nos a violência que todo o espectáculo acarreta, o companheirismo entre os lutadores, os movimentos combinados, a auto-flagelação em prol do espectáculo, enfim, mostra-nos os bastidores do Wrestling. Aronofsky traz-nos a história de Randy Robinson (The Ram) (Mickey Rourke), uma estrela do Wrestling, que vinte anos após o seu auge como lutador profissional luta agora em lugares de baixa categoria. Embora o seu auge tenha passado, The Ram continua a ser um ídolo para os fãs do Wrestling, desde crianças a adultos e para os seus companheiros que o vêem como um professor ou mestre entre eles. Aronofsky retrata-nos o submundo da luta livre americana de forma soberba. The Wrestler oscila entre o espectáculo da luta livre americana e a personalidade de um lutador, que já em decadência tem um ataque cardíaco que dita o seu afastamento da única coisa que sabe e quer fazer. Aronofsky mostra-nos os truques, os segredos, os podres do Wrestling, enquanto nos conta a história de Randy fora desse mundo que ele tanto gosta. É aqui que o filme se expande psicologicamente, com Rourke a encarnar na perfeição um homem solitário, não só pelas circunstâncias da vida, mas também pelas suas próprias escolhas. Aronofsky pretende nos mostrar, e penso que não é para generalizar, a incompatibilidade do Wrestling para com uma vida estável emocional e familiar. Por outro lado, quando o inevitável chega, e por inevitável refiro-me ao ter que abandonar o ringue, este homem solitário e desajeitado tenta reconstruir relações que outrora não se preocupou em sustentar, neste caso a relação com a sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood). E quando este tentar de aproximação e reconquista da relação pai/filha que há muito se perdera falha, esta alma errante que Aronofsky nos tenta fazer crer que apesar de querer construir; aqui com a stripper Cassidy (Marisa Tomei); e reconstruir relações emocionais e familiares que tragam algum sentido à sua vida após a dura realidade do abandono, quando toda esta manobra de substituição daquilo que realmente fazia sentido na sua vida falha, este escolhe arriscar/sacrificar a vida em prol de um estado psicológico que lhe traga algum conforto emocional e prazer físico. Ou seja, o wrestling era na sua essência aquilo que o definia e o fazia estar bem consigo próprio, na realidade era a sua própria vida. Privado do Wrestling, Randy desespera e tenta compensar com o tempo perdido, com relações que nem ele próprio acredita terem sucesso. Por isso, num pequeno/grande esforço no reaproximar da filha que lhe traz esperanças num futuro radioso, mesmo sem poder lutar, após esse esforço com sucesso Randy perde-se no seu mundo e perde mais uma vez a oportunidade de concretizar esse sonho duma relação saudável de pai e filha. É aqui que percebemos que este homem solitário, desajeitado e perdido (após deixar de lutar), não será nunca capaz de manter uma relação, apesar de a ansiar e procurar. É depois deste insucesso em criar laços com a filha, que Randy tenta mais uma vez estabilizar a vida, desta vez profissionalmente, quando arranja um trabalho num supermercado. Mas, tal como nas relações em que não consegue mantê-las, também aqui Randy mostra que não consegue aguentar uma vida normal. Aronofsky cria aqui o momento perfeito para nos definir a essência e a personalidade de Randy, quando um homem o reconhece no supermercado e ele nega a sua identidade. Aqui, ao interiorizar que ainda é um ídolo do wrestling para muita gente, Randy simplesmente desiste de tentar ser mais um “Zé-ninguém” trabalhador de um super-mercado. É aqui que percebemos que Randy gosta de ser um ídolo, que gosta de ser conhecido e de ser famoso. Quando percebe que mesmo noutra profissão ainda é reconhecido, questiona-se o que faz ali, reconhece apesar da tentativa em contrário que o seu lugar é na luta livre, que isso é a sua vida e que sem o wrestling não vale a pena viver. Descobrimos assim que, a sua paixão pela luta e por aquele estilo de vida era mais forte do que qualquer relação, amorosa ou familiar. Penso até que essa paixão pela luta era mais forte que ele próprio.
Este é um filme com uma grande carga emocional, violento, cru e realista. O argumento de Robert Siegel é muito bom e a prova disso é ser um dos pontos fortes do filme, bem como a fotografia, a realização de Aronofsky e as interpretações de Mickey Rourke e de Marisa Tomei, ambos nomeados para o Óscar de Melhor Actor e Melhor Actriz Secundária, respectivamente. Este The Wrestler é para mim um dos melhores filmes do ano de 2008 a par de Gomorra e The Curious Case of Benjamin Button, sendo assim necessário expressar aqui o meu desagrado à sua ausência na categoria de Melhor Filme e Melhor Realizador na Academia de Hollywood.

30 de janeiro de 2009

Elia Kazan



Elia Kazan (Elias Kazanjoglou de nome de família) nasceu a 7 de Setembro de 1909 em Constantinopla (actual Istambul, na Turquia) no seio de uma família grega e morreu a 28 de Setembro de 2003, em Nova Iorque. Aos quatro anos, emigrou para Nova Iorque. Nos anos trinta projecta-se como encenador de peças da Broadway no circuito nova-iorquino, o que lhe dá oportunidade de ir para Hollywood. No começo da Guerra Fria, os artistas, argumentistas e realizadores comunistas ou pro-comunistas são alvos duma perseguição, conhecida como a caça às bruxas. Foi aqui que Elia Kazan, que militou no partido comunista entre 1934 até 1936, cedeu. Para que o libertassem dos interrogatórios no Comité de Investigações de Actividades Anti-Americanas, colaborou com os agentes macarthistas, revelando nomes de ex-companheiros, sendo estes interrogados e presos. Com a polémica instalada e a fama de traidor estabelecida na sua pessoa, Kazan decide inaugurar, nos anos 50, um subgénero dramático, a contemplação do traidor.
Foi nomeado, pela Academia de Hollywood, cinco vezes na categoria de Melhor Realizador pelos filmes Gentleman’s Agreement (1947), A Streetcar Named Desire (1951), On the Waterfront (1954), East of Eden (1955) e America, America (1963), tendo ganho a estatueta por Gentleman’s Agreement e On The Waterfront. Recebeu ainda uma nomeação na categoria de Melhor Filme e outra de Melhor Argumento pelo filme America, America. Em 1999, a Academia de Hollywood entregou-lhe o Óscar Honorário em reconhecimento da sua carreira no cinema. Nos Globos de Ouro, recebeu quatro prémios como Melhor Realizador pelos filmes Gentleman's Agreement (1947), On the Waterfront (1954), Baby Doll (1956) e America, America (1963). Recebeu ainda dois prémios Bodil como Melhor Filme Americano por On The Waterfront (1954) e East of Eden (1955). No Festival de Cannes, foi galardoado com o Prémio de Melhor Filme – Drama por East of Eden (1955), enquanto no Festival de Berlin lhe entregaram o Urso de Ouro Honorário em 1996. Por fim, no Festival de Veneza foi distinguido com o Leão de Prata por On The Waterfront (1954), o Prémio Especial do Júri por A Streetcar Named Desire (1951), recebeu o Prémio Internacional por Panic in The Streets (1950) e recebeu o Prémio OCIC por On the Waterfront (1954).

Filmografia

1937 - The People of The Cumberland (curta-metragem)
1945 - A Tree Grows in Brooklyn (Laços Humanos)
1947 - The Sea of Grass (Terra de Ambições)
1947 - Boomerang!
1947 - Gentleman's Agreement (A Luz é Para Todos)
1949 - Pinky
1950 - Panic in The Streets (Pânico Nas Ruas)
1951 - A Streetcar Named Desire (Um Eléctrico Chamado Desejo)
1952 - Viva Zapata!
1953 - Man On a Tightrope (Os Saltimbancos)
1954 - On The Waterfront (Há Lodo no Cais)
1955 - East of Eden (A Leste do Paraíso)
1956 - Baby Doll (A Voz do Desejo)
1957 - A Face in The Crowd (Um Rosto na Multidão)
1960 - Wild River (Rio Violento)
1961 - Splendor in The Grass (Esplendor na Relva)
1963 - America, America
1969 - The Arrangement (O Compromisso)
1972 - The Visitors
1976 - The Last Tycoon (O Último Magnata)

29 de janeiro de 2009

"O cristianismo desenvolve-se num terreno absolutamente falso, onde toda a natureza, todo valor natural, toda a realidade, tinham contra si os mais profundos instintos das classes dirigentes, uma forma de inimizade para com a realidade, inimizade de morte que ainda ninguém ultrapassou. O "povo eleito", que para todas as coisas apenas conservara valores de padres, palavras de padres, e que separou de si, com uma lógica implacável, como coisa "ímpia, mundo, pecado", tudo o que restava ainda de potência sobre a Terra, este povo criou, para os seus instintos, uma última fórmula, consequente até à negação de si próprio: acaba por renegar, no cristianismo, a última forma da realidade, o "povo sagrado", o "povo dos Eleitos", a própria realidade judaica. O caso é de primeiríssima ordem: o pequeno movimento insurrecional, baptizado com o - nome de Jesus de Nazaré, é uma repetição do instinto judaico, por outras palavras, do instinto sacerdotal que já não suporta a realidade do padre; é a invenção de uma forma de existência ainda mais retirada, duma visão do mundo ainda mais irreal do que aquela que a organização da Igreja estipula. O cristianismo nega a igreja.
Não vejo contra quem pudesse ser dirigida a insurreição da qual Jesus, talvez sem razão, passou por ser o promotor, senão contra a Igreja judaica, Igreja tomada exactamente no sentido que hoje damos a essa palavra. Era uma insurreição contra "os bons e os justos", contra os "Santos de Israel", contra toda a hierarquia da sociedade; não contra a corrupção da sociedade, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, a fórmula. É uma falta de fé nos "homens superiores", um não pronunciado contra tudo o que era padre e teólogo. Mas a hierarquia que, por esse facto, era posta em causa, nem que fosse por um só instante, era a morada flutuante, a única que permitia ao povo judaico existir no meio da "água", a última possibilidade de sobreviver dificilmente adquirida, o resíduo da existência política autónoma: um ataque contra esta existência era um ataque contra o seu mais profundo instinto popular, contra a mais tenaz vontade de viver que jamais se viu sobre a Terra por parte de um povo. Esse santo anarquista que chamava os mais humildes do povo, os reprovadores e os pecadores, os Chandalas do judaísmo, à resistência contra a ordem estabelecida - com uma linguagem que, ainda agora, a acreditar nos Evangelhos, levaria à Sibéria –, esse anarquista era um criminoso político, pelo menos tanto quanto um criminoso político era possível numa comunidade absurdamente impolítica. Foi isso que o conduziu à cruz: a prova disso é a inscrição que se encontrava no cimo da mesma cruz. Ele morreu por causa dos seus pecados – não há qualquer razão para se pretender, embora muitas vezes se tenha pretendido, que ele morreu pelos pecados dos outros."

Friedrich Nietzsche
"O ANTICRISTO"

7 de novembro de 2008

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. E, se é verdade, tal como Nietzsche o quer, que um filósofo, para ser estimável, deve dar o exemplo, avalia-se a importância desta resposta, visto que ela vai preceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso aprofundá-las para as tornar claras ao espírito.
Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos - das interrogações. Como responder-lhe? Em todos os problemas essenciais (e por tal entendo os que podem fazer morrer e os que duplicam a paixão de viver) só há provavelmente dois métodos de pensamento, o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que nos faculta ao mesmo tempo o acesso à emoção e à clareza. Num assunto ao mesmo tempo tâo humilde e tão cheio de patético, a dialéctica sábia e clássica deve pois ceder o seu lugar, é fácil de conceber, a uma atitude de espírito mais modesta que deriva ao mesmo tempo do bom senso e da simpatia.
O suicídio nunca foi tratado senão como fenómeno social. Aqui, pelo contrário, para começar, importa-nos a relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. O próprio homem o ignora. Uma bela noite, dá um tiro ou atira-se à água. De um gerente de prédios de rendimento que se matara, diziam-me certo dia que ele perdera a filha havia cinco anos, que mudara muito desde então e que essa história «o havia consumido». Não se pode desejar palavra mais exacta. Começar a pensar é começar a ser consumido. A sociedade não tem grande coisa a ver com estes princípios. O veneno está no coração do homem. É aí que ele deve ser procurado. Esse jogo mortal, que vai da lucidez perante a existência à evasão fora da luz, é preciso segui-lo e comprendê-lo.
Há muitas causas para um suicídio e, de um modo geral, as mais aparentes não têm sido as mais eficazes. As pessoas raramente se suicidam (a hipótese, no entanto, não se exclui) por reflexão. Aquilo que provoca a crise é quase incontrolável. Os jornais falam muitas vezes de «desgostos íntimos» ou de «doença incurável». São explicações válidas. Mas era preciso saber se nesse próprio dia um amigo do desesperado não lhe falou num tom indiferente. É ele o culpado. Porque isso pode bastar para precipitar todos os rancores e todos os cansaços ainda em suspenso.
Mas se é difícil fixar o momento preciso, o movimento subtil do espírito em que este se determinou pela morte, é mais fácil tirar do próprio gesto as consequências que ele implica. Matar-se, em certo sentido (e tal como no melodrama), é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a compreendemos. Não vamos, em todo o caso, tão longe nas analogias: voltemos às palavras correntes. O suicídio é apenas a confissão de que a existência «não vale a pena». Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos a fazer os gestos que a existência ordena, por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Morrer voluntariamente implica reconhecermos, mesmo instintivamente, o carácter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento.
Qual é então esse incalculável sentimento que priva o espírito do sono necessário à sua vida? Um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões, é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num universo súbitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro. Tal exílio é sem recurso, visto que privado das recordações de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida."
Albert Camus
"O Mito de Sísifo"