Rafi Pitts
Brutal, brutalidade da tragédia, Pitts desaba o mundo ou a humanidade, acaba com ela, com a pouca dignidade que há, com a pouca compunção que possa haver, destrói tudo o que o ser humano possa ter de belo, corrompe a alma e os sentidos. The Hunter é coisa tão sombria e tão obscura dentro de tanta clareza e tanto acinzentado nevoeiro quanto o simbolismo daquele túnel onde Pitts nos leva uma e outra e outra vez sem cessar, deambulando entre a cidade e a floresta, onde acaba. É das sombras que nasce as trevas e das trevas que irradia a tragédia e a sua brutalidade, coisa efémera a felicidade, mais importante ou mais trágico das tragédias a reinserção social que abruptamente sofre o revés e desperta a impiedade resultante da dor da perda. Caçador que vira caçado na forma mais vil da humanidade, a polícia na sua face oculta que perdida na floresta se desoculta. Pitts trabalha nos olhares, na rigidez do semblante, nos silêncios, na frieza de quem perdeu tudo mas não verte uma lágrima, na rejeição dos facilitismos e maneirismos e toda a merda acabada em ismos, na procura da morte que anda sempre ali à beira daquele homem, nos planos e contra-planos e nos enquadramentos e na profundidade de campo. The Hunter, filme da morte ou da procura da morte, mas mais que isso filme da descrença total, renúncia à Deus e ao ser humano, condenação da humanidade e da sua iniquidade, coisa visceral na ontologia do ser humano. Brutal.