Mostrar mensagens com a etiqueta Maurice Pialat. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maurice Pialat. Mostrar todas as mensagens

17 de junho de 2011

Van Gogh (1991)
Maurice Pialat

Não tenho palavras para dizer ou para descrever o que é Van Gogh de Pialat, a obra-prima que é, a brutalidade ou a intensidade de filme que é, coisa tão bela e tão fresca assim como claustrofóbica, distante do mito e do artista, tão perto (ainda que tão longe sem que Pialat nos mostre o íntimo de Van Gogh) do homem, tão preocupado no homem, na sua angústia, na sua inadaptação e revolta interior pela ausência do reconhecimento global (ou comercial) da sua obra, da sua arte. Pialat filma mais o homem que o artista (ainda que o vejamos sempre obstinado no trabalho, nos quadros), a sua relação com as mulheres, coisa tão distante, a incapacidade de amar, de partilhar a sua obstinação na pintura com um amor ainda que a sua relação com Marguerite se aproxime tanto desse amor. É tudo tão inquieto, melancólico, naturalista, vivo, realista, cru, tão desprovido de qualquer moralismo ainda que a época assim o permita, tudo tão longe do convencionalismo e dos sentimentalismos habituais (ainda que haja tanta sensibilidade por ali). Um assombro de filme.

30 de maio de 2011

L'Enfance nue (1968)
Maurice Pialat

L'Enfance nue é coisa tão pueril mas tão pueril como já há muito tempo não via, breve candura da infância a misturar-se com a rebeldia da mesma, resultado da crueldade do abandono. L'Enfance nue, filme da perda e da reconquista, filme da reconciliação e da resignação, filme da orfandade brutal que explode naquela criança, coisa irascível porque de irascibilidades vive o abandono/orfandade, brutalíssimo mas tão simples tão belo tão real tão desprovido de quaisquer moralismos ou julgamentos. Tudo é sentimento sem lamechice, sem sensacionalismos, sem choradeiras, o olhar sobre a reacção infantil à nova condição, filme da vida e dos laços afectuosos, a compreensão do ser, da mágoa e da inadaptação de quem foi abandonado. Pialat, cineasta da forma, da simplicidade da temática, dos filmes crus e vivos, cineasta do olhar sobre o ser humano que influenciou tanto cineasta contemporâneo (Dumont, Dardenne…). Nada de segundas intenções, de ambiguidades, de mensagens sociais e outras merdas (embora o filme inicie com uns breves planos duma manifestação), é tudo tão directo no que quer mostrar. L'Enfance nue, primeira longa-metragem de Pialat é uma obra-prima sobre a crueldade da orfandade e a inadaptação ou a recusa infantil ao novo meio social, à(s) nova(s) família(s), é sobre a violência do crescimento precoce do órfão, é sobre a conduta rebelde de quem carrega consigo toda a mágoa do mundo pelo abandono maternal e paternal, é sobre a descoberta do amor naquele casal de idosos. Grandioso.

27 de maio de 2011

À Nos Amours (1983)
Maurice Pialat

Aquilo que Pialat filma é qualquer coisa de tão visceral, tão agressivamente brutalmente e vigorosamente sexual, sensual, leviano, descoberta de novos sentidos, procura constante e sem fé da felicidade, do amor, coisa maldita, forçada ao fracasso, expiação de qualquer coisa, incapacidade de amar ou de encontrar o amor. À Nos Amours, filme de uma tal magnitude que arranca tudo às vísceras, moral e eticamente abalado e a abalar tudo e todos, disfunção familiar, violência quer física quer psicológica, intensidade frenética, adolescência à deriva inserida num meio inadaptado…

Pialat filma tudo simples e directamente, na procura do realismo, da crueza, na explosão iminente dos histerismos uivantes daquela família disfuncional e desmembrada a pouco e pouco, coisa física entre os personagens, demasiado físico em tudo o que rodeia aquela história duma adolescente que perde a virgindade por um acaso num acto irreflectido de revolta. Revoltosa passará a ser, para com o mundo mas sobretudo para com a mãe, semblante oposto ao seu, espírito rebelde e autónomo, a candura que se perdeu e que resultou nessa índole agridoce para com a vida, disposta a tudo porque para ela tudo vale e nada é suficiente, refazer da vida na sombra do erro, do primeiro erro, o primeiro amor que será sempre o único porque o restante percurso é fruto do seu erro, é a procura desse amor em outros tantos amores que ela sabe nunca ser igual ao primeiro, porque do primeiro resta a candura - amor de criança - coisa pueril, antagonismo de tudo o resto em que ela mergulha. À Nos Amours, filme da descoberta.