Entre o óbito e o renascer...
O último filme dos irmãos Dardenne é o atestado de óbito do cinema a que estes nos habituaram, o mesmo atestado de óbito que “Lorna” já augurava, isto porque, ainda que todo o filme se movimente pelo realismo (ou neo-realismo) social a que os Dardenne são familiares desde o primeiro dos seus filmes, é a ausência daquela crueza e daquele ritmo frenético com que filmavam que desilude (ou que se estranha ou que atesta o óbito), é a mudança da forma de filmar (ainda que por momentos, a espaços, surjam alguns planos e enquadramentos “reconhecidos” da dupla e se “revisite”, a espaços novamente, a herança do Dogma 95, a câmara à mão e aquela perseguição desenfreada em que noutros títulos da dupla abundavam), a distância que a câmara assume nas personagens (de todas as formas). “Le Gamin au Vélo” perde (o que “Lorna” não perdeu por completo) a réstia de arcaísmo fílmico existente nos belgas, a recusa ao melodrama, ganha os floreados e o sentimentalismo meloso. A moralidade do tema, o tal realismo social que aqui se direcciona para a orfandade adquirida e para a delinquência infantil que daí resulta (que acarreta a ausência de afecto, a rejeição paternal, etc), as questões sociais, o realismo do seu cinema, isso tudo continua lá, mas onde “Rosetta”, “La Promesse” e “L’Enfant” buscavam a crueza e a “perseguição” dos seus personagens centrais, a “exclusividade” realista, quer de texto quer de imagem, a preocupação na sobrevivência, no instinto de sobrevivência do homem, “Le Gamin au Vélo” (como já em “Lorna” se antevia) recorre à tal distância e ao cinema “encaixadinho” ou seguro (dos planos e enquadramentos) dos grandes estúdios norte-americanos (ainda que não me desagrade algum classicismo que conseguem alcançar), aqui eles fogem à aproximação ao personagem, distanciam-se dum “rudimentarismo” que compunha o seu cinema e optam por um certo convencionalismo e sentimentalismo lamecha. No final, o que fica é a desilusão!
Já no último filme de Mike Leigh falemos da volta ou da quase volta do Leigh do realismo, da crueza e da depressiva rotina da vida. Leigh é um contador de estórias da vida, é isso que ele é… este Mike Leigh e não o de “Topsy-Turvy”… este Leigh que vai às raízes do seu cinema, ao “Naked” e ao “Secrets & Lies” buscar tanta coisa para fazer um “Another Year” brutal, coisa tão imersa na simplicidade de contar uma estória, na simplicidade de filmar um certo realismo, coisa de rotinas, das pequenas coisas da vida, dos encontros e desencontros da vida, dos dissabores e das mágoas, das alegrias e daquilo que realmente nos rodeia, que faz de nós humanos. Leigh filma a vida com a sua feiura e a sua boniteza, filma as relações que sempre foram uma das maiores preocupações do seu cinema, são lições de vida e não fantasias de estudantes ou de garotos que cresceram a ver os action movies da Hollywood dos anos oitenta e noventa. “Another Year” é a negrura do mundo, da vida, é a verdadeira negrura e não o fim do mundo em cuecas ou o apocalipse ali ao lado… mas é uma negrura equilibrada e não caótica como a de “Naked” ou a de “Secrets & Lies”, uma negrura que vai buscar a cor e o optimismo de “Happy-Go-Lucky” para equilibrar com a depressão e a dureza das contrariedades da vida, uma negrura pálida e seca, o realismo que foge da depressão e do precipício para trazer uma certa resignação e consequente descoberta da felicidade (condicionada ou não) possível e realizável… porque estórias de encantar só mesmo as historiazinhas de embalar que por ora se fazem lá em Hollywood!
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15 de fevereiro de 2012
14 de janeiro de 2011
Ao rever Rosetta dos Dardenne descobri aquilo que devia ter descoberto logo após a primeira visualização, Bresson em todo o lado. Rosetta é um autêntico hino a Bresson, ao Pickpocket principalmente. A redenção final, o percurso do personagem, a simplicidade da narrativa, o minimalismo, a crueza. Tudo é Dardenne, tudo é Bresson.
31 de maio de 2010
Le Silence de Lorna (2008)
A Lorna podemos (e devemos) dar um estatuto de novo. Mas novo em estilo, em forma, enfim, um novo cinema. Porque Le Silence de Lorna distancia-se (bastante até) de tudo a que os Dardenne fizeram anteriormente. O que ficou foi o sentido neo-realista do cinema dos belgas, a vertente social a que os irmãos Dardenne recorrem em todos os seus filmes, a humanização/desumanização desmesurada dos seus personagens. De resto, Lorna é novo, é pior. A aproximação ao Dogma desapareceu, a proximidade da câmara ao personagem, a forma de o seguir, o ritmo acelerado, tudo o que definia visualmente e artisticamente o cinema dos Dardenne foi em Lorna abandonado. Não é mau filme, mas espero bem que tenha sido só uma experiência dos belgas. 24 de maio de 2010
22 de março de 2010
Rosetta (1999)
Rosetta é uma pérola do cinema, ou melhor, a dupla dos irmãos Dardenne é uma pérola do cinema. Porque não há cinema mais simples e concreto que o cinema dos Dardenne. Rosetta é o segundo filme deles que vejo, e, se Le Fils me deixou perplexo, Rosetta deixou-me atónito. Porque para além do realismo exacerbado com que o cinema dos Dardenne se identifica, a arte de filmar, a mise-en-scène dos belgas, é a grande beleza do seu cinema. E se este cinema, oriundo de um Dogma 95, nos sensibiliza tanto, isso deve-se à câmara dos Dardenne, à proximidade com que ela se cola ao personagem, a um estilo de câmara na mão. A forma como a câmara é conduzida, a forma como segue a personagem é simplesmente brilhante e o grande trunfo deste cinema neo-realista dos belgas.
Rosetta é, num âmbito geral, um retracto duma dura realidade (como o é Le Fils), uma crítica social desconfortável duma realidade cada vez mais presente, a sobrevivência, a luta contra o desemprego. Acima de tudo, somos confrontados com um cinema frio e metódico onde só nos é apresentado o essencial para a compreensão da obra. O filme começa com o despedimento da jovem Rosetta, ao qual ela reage descontroladamente e agressivamente. A partir daqui, somos levados a perseguir (literalmente) Rosetta para onde quer que ela vá. Ou seja, Rosetta é Rosetta e mais nada. Os Dardenne querem sobretudo filmar a dura realidade de quem procura exaustivamente um trabalho, de quem procura uma vida normal. E para isso, fazem de Rosetta um ser desprezível, capaz de qualquer coisa para ter uma vida normal, para conseguir um meio que lhe traga o seu ganha-pão.
Mas Rosetta é muito mais que isso, lida com muito mais que isso. Rosetta é o quotidiano daquela jovem endurecida pela dura realidade, pela falta de afecto, endurecida antes do tempo. E por isso a sua constante procura num trabalho, por isso a sua forma de lidar com a mãe alcoólica que se prostitui para alimentar o vício, por isso o ritmo frenético com que Rosetta se movimenta naquele meio urbano. Observamos a sua rotina, o seu modo de conseguir alimento, a sua forma de entrar no acampamento onde coabita com a mãe (de quem sente vergonha e repúdio não obstante a um imutável afecto e incessante procura na reabilitação desta). Mas sempre fria, dura (a única vez que Rosetta sorri ocorre quando o único amigo que tem desata a tentar fazer habilidades sem sucesso).
Mas no fim Rosetta alcança a redenção (como Le Fils a alcançou). No fim, e depois de provar ao espectador a ausência de escrúpulos, a capacidade de abdicar e trair o único amigo que possui para conseguir um trabalho; no fim chega a redenção, o estranho poder de Rosetta nos incutir alguma pena por aquele ser, por aquela vítima da sociedade. Maravilha de cinema.
8 de março de 2010
Le Fils (2002)
Le Fils é para mim a primeira experiência no cinema dos irmãos Dardenne. Experiência essa que se revelou extraordinária. Ao ver o filme lembrei-me muito de Alonso, do seu cinema paciente, realista, minimalista e humano. Mas o cinema de Jean-Pierre e Luc Dardenne é que influenciou Alonso (penso eu). E distancia-se na mise-en-scène, na condução da câmara sempre colada ao personagem, na moralidade inerente. Le Fils trata da perda, da dor da perda, da capacidade de perdoar ou de conviver com quem ceifou a vida daquele que lhe era amado. Le Fils é o trajecto de Olivier, a atitude de Olivier, a reacção de Olivier. Le Fils é Olivier. Tudo se resume à expectativa do perdão, à dualidade de sentimentos que Olivier tem face à convivência com quem tirou a vida do filho. Le Fils busca perdão, busca a racionalização em detrimento do sentimento, da dor, da perda, da raiva. Não consigo deixar de pensar que, se o filme fosse americano, haveria sangue, vingança. Mas não é assim, porque os Dardenne querem filmar a diferença entre o bem e o mal, querem filmar o homem e a sua conduta, a sua dor, a sua aceitação da realidade. Nada mais. Grande filme.
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