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25 de junho de 2011

Medea (1988)
Lars Von Trier

Medea é provavelmente a melhor coisa que Von Trier já fez, Medea ou Breaking the Waves, um deles, objectos tão crus, tão obscuros e tão brutais. Sim, Medea é coisa bruta, medieval, teatral, dum romanesco sombrio e obscuro, objecto duma brutalidade comprimida que explode dentro da mitologia. Medea, o mito a obra, sempre foi objecto de várias explorações nas mais variadas artes desde a pintura à escultura, do teatro ao cinema. É a tragédia de Eurípedes segundo um manuscrito de Dreyer e Preben Thomsen nunca transposto para a tela. É a sua homenagem a Dreyer o mestre como Von Trier lhe chama. Trabalha-se no mito, na versão de Eurípedes que só por si é das coisas mais cruéis e frias jamais feitas. Trabalha-se no ambiente, na obscuridade e na negrura arcaica que remete para um tempo indeterminado. Trabalha-se na mulher traída, sábia e conhecedora das artes do mal como Creonte lhe diz no meio da neblina quando a visita para a banir do país, trabalha-se na vingança, no ambiente obscuro, sombrio, ambíguo e apocalíptico que confere o “pesadelo” ou o sofrimento ou a agonia que Medeia vive após a traição de Jasão. Sabemos, quando Egeu o diz, que Jasão tudo deve a Medeia, que houve ali um acordo para o seu sucesso (quem conhece o mito sabe qual foi), que algo de terrível Medeia fez por amor a Jasão (mais uma vez quem conhece o mito sabe que ela traiu o pai, sabe que matou o irmão para Jasão alcançar o êxito). E é daí que transborda a dimensão da traição que acarretará a tragédia cruel a que assistimos no final. Medeia tudo fará (coisa que o diz a Creonte na tal cena da névoa) para se vingar de Jasão. Mas Von Trier recusa a violência, o próprio acto final de Medeia é feito na mais plena tranquilidade onde se explora sobretudo a dor dela. Aí, recusa novamente de qualquer caracterização maléfica a Medeia, tendo esta, no entanto, toda a ira do mundo a Jasão pela sua traição, ira essa capaz daquela atrocidade final.

19 de maio de 2011

Ao ver isto é caso para perguntar ao palhacinho Se não fosses parvinho que é que gostavas de ser?

8 de novembro de 2009

Antichrist (2009)

Um filme de Lars Von Trier

















Antes de mais, e admitindo que existem neste “Antichrist” cenas chocantes e, diria até, viscerais, o novo filme de Lars Von Trier não é assim tão visualmente ofensivo (exceptuando duas ou três cenas) a ponto de causar desmaios como aconteceu no New York Film Festival. Mas, polémicas e susceptibilidades à parte, “Antichrist” é realmente um grande filme.
Mais importante que toda a polémica, que todas as opiniões acerca do dinamarquês proclamando-o de sádico ou perverso, mais importante que tudo é perceber que “Antichrist” reincide no mesmo tema que “Breaking The Waves” e “Dancer in The Dark”, o tema da dor. E “Antichrist” é certamente aquele que mais explora visualmente e psicologicamente essa dor. Mas se alguém me diz que Von Trier exagerou com toda a provocação gráfica e detalhe sexual visualmente explícito, eu digo veja “Riget” e depois continue a dizer que “Antichrist” é uma obra repulsiva.
Mas, continuando, Lars Von Trier gosta de explorar a dor, o sofrimento, a angústia. E tal como em “Breaking The Waves”, onde Bess entrava num conflito interior acerca do bem e do mal, do que é ou não pecado (graças ao ambiente rígido e preconceituoso em que Bess está inserida), “Antichrist” reflecte também nesses temas, na definição do bem e do mal, no que é normal e anormal. E se “Breaking The Waves” pretendia desafiar convencionalismos ou moralidades religiosas, “Antichrist” vai mais longe. Até porque visualmente é completamente o oposto. E se “Dancer in The Dark” apresentava uma Selma frágil, inocente e pura que cai na tragédia, aqui Von Trier cria dor noutro estado. Aqui, Von Trier explora uma complexidade espiritual e sexual que acaba por criar sentimentos opostos. Porque o cineasta dinamarquês resolve criar simbolismos, resolve criar uma espécie de caos mental. E se após a morte do filho o sentimento que arrasa a mãe é o sofrimento, a loucura vai apoderar-se dela até nascer dentro dela uma raiva incontrolável.
Trier divide o filme em 6 capítulos que são Prólogo, 1º Capítulo – Sofrimento, 2º Capítulo – Dor (O Caos Reina), 3º Capítulo – Desespero (Genocídio), 4º Capítulo – Os Três Mendigos e Epílogo. É assim que Lars Von Trier decide apresentar “Antichrist”, dividindo as fases que levam a personagem de Gainsbourg a percorrer o caminho desde o início de uma depressão causada pela morte do filho até à loucura.
Mas “Antichrist” revela-se como uma obra negra. O dinamarquês tudo faz para assim o ser. E mais que negro, “Antichrist” é essencialmente um filme cru (apesar de toda a beleza cinematográfica de Anthony Dod Mantle). Além do mais, o filme é niilista com toda a ausência de definições do bem e do mal e com todos os simbolismos criados. Sim, porque esse conflito que é criado e que origina a instabilidade mental e emocional que leva à loucura dela nunca é claramente explicado. Se por um lado vemos que antes da morte do filho já ela sofreria de alguma perturbação mental, somos ainda confrontados com o colapso sofrido após a morte do filho e que logo a seguir ao despertar origina aquilo que dá nome ao primeiro capítulo, o sofrimento (ou depressão). Mas “Antichrist” transporta ainda o medo que o casal tenta vencer com a terapia indo para o Éden. E o filme transcende-se na procura de respostas. Respostas que estão escondidas na natureza, natureza essa que aqui personifica o mal, o mal humano. Esse conflito entre bem e mal, entre o correcto e o errado, entre sanidade e insanidade invadem “Antichrist” desde o primeiro minuto do filme (a morte do filho – início do filme – acontece no acto sexual do casal).
“Antichrist” explora a dor, o sofrimento, o medo, a loucura, a sexualidade. E Trier fá-lo agressivamente, visceralmente e controversamente. Mas, independentemente de tudo isso, “Antichrist” é indubitavelmente um grande filme.