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29 de julho de 2010

Sobre Inception

Ora bem, em primeiro dou muita mais credibilidade ao Oliveira do que ao Mourinha. Porque o Mourinha é muito mainstream, muito hollywoodesco. Depois, não espero grande coisa deste filme, ainda p'ra mais agora com a crítica do Oliveira mais desconfiado fiquei (e o Vasco Câmara ainda não disse nada, porque desconfio que quando vir o filme e escrever é pior que o Oliveira).
Aqui fica a crítica do Oliveira.

Visualmente enfadonho

Por razões que a "sociologia do espectador" um dia explicará, Christopher Nolan tornou-se especialista em "rebentar com o tomatómetro do consenso de massas", como se escrevia outro dia no "Village Voice" (e se o leitor não sabe o que é o "tomatómetro" procure os Rotten Tomatoes na Internet). Outro famigerado "tomatómetro", o Top 250 da IMDB, mete 3 filmes de Nolan nos primeiros 30, e "A Origem" está em terceiro... Pois sim. Um "filme sobre sonhos", anuncia-se, e a gente fantasia com um Cocteau americano ou com um blockbuster surrealista.




O que há é um Christopher Nolan inglês, e surrealismo nem vê-lo - pobres devem ser os sonhos de Nolan, tão visualmente enfadonho é o seu filme (que tem muito mais a ver com "second lives" e "third lives", ou com uma existência "em rede", plena de "zeitgeist", a que se tenta atribuir alguma misteriosa "transcendência", se a "sociologia do espectador" não se importar que a gente vá avançando uns tópicos).

Avesso a qualquer noção de "estilo", o filme avança de cenas desinteressantes em cenas desinteressantes, banalmente filmadas e montadas (a única ideia "onírica" tem a ver com uma canção de Piaf, é a melhor ideia e é uma ideia de som) como as de qualquer anónimo "action movie" (muita correria, muito tiroteio), cosendo tudo com uma intriga complicadíssima sobre "implantações" e "extracções" de "ideias".

Dez anos a escrever o argumento, diz Nolan, e mesmo assim, dizemos nós, "A Origem" tem que pôr as personagens permanentemente a explicar o que aconteceu na cena anterior e o que vai acontecer na cena a seguir, como se o filme tivesse integrado um PDF com o manual de instruções (há alguns filmes de "fc" que funcionam assim, mas não se levam a sério um décimo do que "A Origem" se leva: longas explicações sobre "barreiras anti-projecções" e afins, who cares?).

Acaba com um piãozinho a rodopiar, ao género dos cavalinhos brancos do "Blade Runner", para deixar o espectador a "pensar". Ora, tomates. (Donnie Darko, por onde andas tu?).



PS: Nota especial para o comentário do anónimo (que se pode ler na imagem) que vai de encontro ao que a crítica do Oliveira refere.


12 de abril de 2010

A propósito de Ruínas

Quem conhece Manuel Mozos das suas longas de ficção (a mais recente das quais, "4 Copas", esteve em salas no Verão) irá ficar surpreendido com este curto filme-ensaio.

Viagem emocional ao espaço do "Portugal profundo" esquecido do tempo, "Ruínas" consiste de uma sequência de imagens de ruínas de espaços públicos ou cívicos, ilustradas por uma banda-sonora atmosférica e por vozes off que parecem surgir do fundo dos tempos, lendo textos que pertencem a outras eras. Memórias, instruções, relatórios, canções, correspondências, que podem ou não corresponder às imagens do restaurante Panorâmico de Monsanto, dos teatros do Parque Mayer, da barragem do Picote, da estação de comboios de Barca d''Alva. Sem narrativa nem lógica, sem nostalgias serôdias de "antes é que era bom" nem poesias elegíacas da "pérola a porcos". "Ruínas" é apenas um pequeno registo desapaixonado da erosão do tempo, como quem constata um facto, com a ironia distante de quem sabe o que estes sítios significaram e o modo como o tempo se encarregou de lhe trocar as voltas. Um retrato do tempo que passou sobre estruturas que em tempos foram úteis e que hoje estão abandonadas, símbolos mudos de um Portugal que já não existe - ou que talvez nunca tenha existido.


Jorge Mourinha