Mostrar mensagens com a etiqueta Darren Aronofsky. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Darren Aronofsky. Mostrar todas as mensagens

6 de janeiro de 2011

Novamente sobre o novo Aronofsky, aquilo que me desiludiu não foi a (sua) forma de fazer cinema, os tais planos ultra-rápidos, a tal veia dos videoclips. Isso não é defeito, bem pelo contrário. Não, isso já no Pi o fazia. O que me desilude em Black Swan é a pretensão existente, a confusão de géneros que se cria (a desnecessária, ilusória e absurda recorrência ao ambiente obscuro e de tensão na aproximação do thriller psicológico), a euforia com que se filma que não é correspondida pelos actores (excepto Natalie Portman). Analisemos:

O que Black Swan conta é a história duma rapariguinha que finalmente (após muitos anos de trabalho, dedicação e obsessão ao ballet) consegue o papel principal (o dos cisnes branco e negro) na peça de Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes. Até aqui tudo bem. O problema chega com a atribuição duma ambiguidade e complexidade ao conflito interior em que Nina incorre. E isto porque aquilo em que Aronofsky mergulha é numa salgalhada de misticismos e confusões de géneros (thriller, drama, romance), onde os seus esforços se dirigem para uma relação intensa e vulgar entre a peça e a evidente demência de Nina. A interpretação do Cassel deixa muito a desejar. Não há profundidade nas personagens, ao contrário do que existe com o conflito interior que assola Nina, o qual é exaustivamente explorado e absurdamente relacionado com a peça de Tchaikovsky. Porque esta ligação que Aronofsky atribui à peça e a Nina vem trazer uma obscuridade alheia à história, vem trazer o suspense, o thriller numa história que assim não o reclama. Pelo menos é assim que eu vejo o filme. Tanta euforia para quê? Toda aquela confusão mental esmiuçadinha para quê? O filme não é mau, donde veio até não está nada mau. Mas para mim nada mais que isso.

3 de janeiro de 2011

Black Swan (2010)
Darren Aronofsky

O problema do Aronofsky é querer intelectualizar tudo, é querer transcender a porcaria dum objecto qualquer. Já o fez antes e volta a fazê-lo. Esse é o grande mal do homem. É querer (quase) divinizar o ser humano e a história que conta. Quer estar próximo do ser humano, fazê-lo sentir-se. Mas falha. Porque há ali muito pretensiosismo e muito simbolismo desnecessário. Há ali muita exaltação, muito delírio visual e sonoro, muita ornamentação, ambiente forçado, desnorte de um género. Também há competência é claro. Imponente, muito bem filmado e uma grande Natalie Portman (é o filme que o deve a ela). Mas é pouco.

14 de abril de 2009

Requiem For A Dream (2000)



“Requiem For A Dream” é uma obra perturbadora e chocante sobre o mundo dos viciados. O vício é o herói principal do filme, seja a droga pura (heroína), a TV ou os medicamentos, que conduz as personagens do filme a uma procura do mundo ideal que é destruído ao longo do filme pela dura realidade e pelo caminho que estas escolhem. É um filme extremamente pesado, duro e, portanto, não é fácil de ver nem de digerir por muitas pessoas. É um filme muito real, cru e devastador. Jared Leto encarna Harry, um jovem que juntamente com Marion (Jennifer Conelly), sua namorada e Tyrone (Marlon Wayans) entram no tráfico de droga a fim de ganharem dinheiro e realizarem os seus sonhos. Harry deseja comprar uma loja de roupa para Marion e Tyrone anseia tornar-se num homem respeitável. Além deles, a mãe de Harry, Sara Goldfarb (Ellen Burstyn), sonha em aparecer na televisão, no seu programa preferido. Aquando duma oportunidade, faz tudo para emagrecer e conseguir vestir um vestido vermelho que tinha levado ao baile de finalistas do seu filho. Para isso, ela tenta de tudo, desde anfetaminas a estimulantes e tranquilizantes. Ao longo do filme, Aronofsky retrata-nos um percurso abismal destas quatro personagens que se vão auto-destruindo até não terem mais nada além do vício, até todos os seus sonhos e objectivos se tornarem utopias.
Aronofsky, cineasta desconhecido do público português até há bem pouco tempo (ainda há muita gente que nunca ouviu falar nele), traz-nos uma obra electrizante, à semelhança do que acontece no seu primeiro filme, “PI”. Além de montar o filme com cenas muito curtas, ele alterna muito rapidamente as cenas intensas ou electrizantes com cenas mais calmas, isto tudo acompanhado por uma banda sonora magnífica de Clint Mansell, que embora agressiva vai crescendo intensamente consoante as emoções das personagens. Aronofsky procura envolver-nos ao máximo com as personagens, de tal forma que, o desenrolar da acção do filme nos deixa completamente presos ao ecrã à espera do final. Final esse que, além de todo o filme ser completamente perturbante, chocante e até sádico, nos deixa completamente extasiados, sem conseguir falar até, reflectindo não só no filme mas em toda a realidade que o filme acarreta. É sem dúvida o melhor filme de Darren Aronofsky, uma portentosa obra de arte que, graças ao estilo de realização e montagem deste senhor, nos leva ao limite das nossas sensações, angústias, medos e emoções.
“Requiem For A Dream” é perfeito.


2 de fevereiro de 2009

The Wrestler



Esta mais recente obra de Aronofsky é uma das grandes injustiças da edição dos Óscares deste ano, mas não é surpresa a Academia de Hollywood ignorar um filme como “The Wrestler”, pois é uma produção independente e a violência que perfaz todo o filme nunca agradou a Hollywood.
“The Wrestler” traz-nos uma análise minuciosa do mundo do Wrestling. Mostra-nos a violência que todo o espectáculo acarreta, o companheirismo entre os lutadores, os movimentos combinados, a auto-flagelação em prol do espectáculo, enfim, mostra-nos os bastidores do Wrestling. Aronofsky traz-nos a história de Randy Robinson (The Ram) (Mickey Rourke), uma estrela do Wrestling, que vinte anos após o seu auge como lutador profissional luta agora em lugares de baixa categoria. Embora o seu auge tenha passado, The Ram continua a ser um ídolo para os fãs do Wrestling, desde crianças a adultos e para os seus companheiros que o vêem como um professor ou mestre entre eles. Aronofsky retrata-nos o submundo da luta livre americana de forma soberba. The Wrestler oscila entre o espectáculo da luta livre americana e a personalidade de um lutador, que já em decadência tem um ataque cardíaco que dita o seu afastamento da única coisa que sabe e quer fazer. Aronofsky mostra-nos os truques, os segredos, os podres do Wrestling, enquanto nos conta a história de Randy fora desse mundo que ele tanto gosta. É aqui que o filme se expande psicologicamente, com Rourke a encarnar na perfeição um homem solitário, não só pelas circunstâncias da vida, mas também pelas suas próprias escolhas. Aronofsky pretende nos mostrar, e penso que não é para generalizar, a incompatibilidade do Wrestling para com uma vida estável emocional e familiar. Por outro lado, quando o inevitável chega, e por inevitável refiro-me ao ter que abandonar o ringue, este homem solitário e desajeitado tenta reconstruir relações que outrora não se preocupou em sustentar, neste caso a relação com a sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood). E quando este tentar de aproximação e reconquista da relação pai/filha que há muito se perdera falha, esta alma errante que Aronofsky nos tenta fazer crer que apesar de querer construir; aqui com a stripper Cassidy (Marisa Tomei); e reconstruir relações emocionais e familiares que tragam algum sentido à sua vida após a dura realidade do abandono, quando toda esta manobra de substituição daquilo que realmente fazia sentido na sua vida falha, este escolhe arriscar/sacrificar a vida em prol de um estado psicológico que lhe traga algum conforto emocional e prazer físico. Ou seja, o wrestling era na sua essência aquilo que o definia e o fazia estar bem consigo próprio, na realidade era a sua própria vida. Privado do Wrestling, Randy desespera e tenta compensar com o tempo perdido, com relações que nem ele próprio acredita terem sucesso. Por isso, num pequeno/grande esforço no reaproximar da filha que lhe traz esperanças num futuro radioso, mesmo sem poder lutar, após esse esforço com sucesso Randy perde-se no seu mundo e perde mais uma vez a oportunidade de concretizar esse sonho duma relação saudável de pai e filha. É aqui que percebemos que este homem solitário, desajeitado e perdido (após deixar de lutar), não será nunca capaz de manter uma relação, apesar de a ansiar e procurar. É depois deste insucesso em criar laços com a filha, que Randy tenta mais uma vez estabilizar a vida, desta vez profissionalmente, quando arranja um trabalho num supermercado. Mas, tal como nas relações em que não consegue mantê-las, também aqui Randy mostra que não consegue aguentar uma vida normal. Aronofsky cria aqui o momento perfeito para nos definir a essência e a personalidade de Randy, quando um homem o reconhece no supermercado e ele nega a sua identidade. Aqui, ao interiorizar que ainda é um ídolo do wrestling para muita gente, Randy simplesmente desiste de tentar ser mais um “Zé-ninguém” trabalhador de um super-mercado. É aqui que percebemos que Randy gosta de ser um ídolo, que gosta de ser conhecido e de ser famoso. Quando percebe que mesmo noutra profissão ainda é reconhecido, questiona-se o que faz ali, reconhece apesar da tentativa em contrário que o seu lugar é na luta livre, que isso é a sua vida e que sem o wrestling não vale a pena viver. Descobrimos assim que, a sua paixão pela luta e por aquele estilo de vida era mais forte do que qualquer relação, amorosa ou familiar. Penso até que essa paixão pela luta era mais forte que ele próprio.
Este é um filme com uma grande carga emocional, violento, cru e realista. O argumento de Robert Siegel é muito bom e a prova disso é ser um dos pontos fortes do filme, bem como a fotografia, a realização de Aronofsky e as interpretações de Mickey Rourke e de Marisa Tomei, ambos nomeados para o Óscar de Melhor Actor e Melhor Actriz Secundária, respectivamente. Este The Wrestler é para mim um dos melhores filmes do ano de 2008 a par de Gomorra e The Curious Case of Benjamin Button, sendo assim necessário expressar aqui o meu desagrado à sua ausência na categoria de Melhor Filme e Melhor Realizador na Academia de Hollywood.