Mostrar mensagens com a etiqueta Bruno Dumont. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bruno Dumont. Mostrar todas as mensagens

14 de janeiro de 2011

Hadewijch (2009)
Bruno Dumont

O último Dumont é um Dumont disfarçado, arrasa por completo toda a ambiguidade da fé sem escandalizar como o fez anteriormente. Disfarça-se e manifesta-se sempre distante do choque. É um filme tranquilo mesmo com toda a luta interior daquela jovem. Aproxima-se dum psicologismo existencial e material relativo à fé, às acções do ser humano e às escolhas deste. O cinema de Dumont sempre procurou encontrar quaisquer resquícios de violência no ser humano. Em Hadewijch isso está lá dissimulado, procurando a expressão em detrimento do choque, da crueza (não da imagem mas das emoções). Mas é tudo Dumont puro, a procura das iniquidades da humanidade sobretudo, a violência que todo o ser humano é capacitado, a mente humana. Dumont explora sempre isso nos seus filmes, o seu pessimismo na humanidade. Hadewijch é sobre uma jovem adolescente obcecada por Deus. Diz que o ama, que não pode deixar de o sentir. E para o sentir, para estar mais perto dele, erra no caminho, aventura-se no islamismo. Tudo resulta da sua constante distância da sua classe social, há ali alguma vergonha (leia-se também rejeição) pelo materialismo. Por isso as escolhas em prol desse desejo utópico do amor a Deus. E no final fica a redenção e a mais irónica das conclusões quando aquele homem acabado de sair da prisão a salva, a de que o bem está também no mal, ou melhor, a de que todo o ser humano é bom e mau.

30 de abril de 2010

La Vie de Jésus (1997)
















Isto sim é cinema do mais alto quilate, sem moralismos, sem sentenças, sem pretensões. Cru e frio, psicologicamente arrebatador. La Vie de Jésus é uma portentosa obra de estreia, mas essencialmente é tudo o que define o cinema de Dumont. Explícito e duro. Um olhar isento sobre aquele mundo, aquele meio social, sobre o nada, o vazio daqueles seres, daquela adolescência. Realista acima de tudo. Poderoso. Brilhante.

21 de março de 2010

Flandres (2006)

















Mais do que toda a crueza no cinema de Dumont, mais do que toda a crueldade, mais do que toda a dureza, mais do que o vazio, existe sobretudo a frieza com que Dumont retracta o ser humano. Porque o seu cinema é frio, pessimista. Se olharmos para L’Humanité e Twentynine Palms vemos sempre essa frieza, essa desumanização do mundo e do ser humano. E Flandres vem no seguimento dessa aposta, na linha duma agressividade que o cineasta quer mostrar. Se L’Humanité (e ainda me falta ver La Vie de Jésus) explorava os conflitos sociais, o vazio daquela comunidade, Twentynine Palms já se dirigia para um conflito interior (que também vemos em L’Humanité) e, essencialmente, um conflito nas relações pessoais, naquele casal. E Flandres traz isso tudo, traz esse vazio e essa desumanização do interior francês onde nos apresenta os campos verdes e cinzentos na procura da natureza, traz depois a barbaridade, a verdadeira ausência de humanidade na guerra, naquele deserto amarelo duma guerra não identificada. E aqui somos levados a perceber que Dumont não distingue essa desumanização. Porque tanto naquele interior francês onde aquela mulher se deixa caminhar em direcção à loucura, como na guerra, o cineasta quer mostrar sempre a falta do humano, a crueldade e o instinto animalesco a que o ser humano é próximo. E o sexo e a morte sempre lado a lado, porque ambos surgem da violência, da crueldade humana. E a vida em Dumont é como algo imposto, onde a sobrevivência reina, onde se resume a uma banalidade rígida. Mas o mais importante no cinema de Dumont é a sua isenção, a falta de parcialidade ou de condenação por parte da câmara. Somos apenas meros espectadores de toda a violência física e psicológica que Dumont apresenta. Não há castigos nem remorsos, porque no cinema de Dumont a própria vida é por si só um castigo. Frio, duro, cru e cruel, assim é o cinema de Dumont.

14 de março de 2010

Twentynine Palms (2003)













Twentynine Palms é um filme cru. Mas cru já o era L’Humanité. O cinema de Dumont é por natureza cru, mas Twentynine Palms ultrapassa L’Humanité em quase tudo. O vazio está lá outra vez, mas outro tipo de vazio, o vazio oposto, um vazio mergulhado na natureza, na liberdade, no sexo. Mas o poder de Twentynine Palms revela-se no fim. E este fim é dos mais perturbadores que já vi em cinema. É dos mais duros, frios, cruéis que já vi num filme. E os planos de Dumont, o enquadramento da câmara, o distanciamento da câmara, os planos longos, tudo. Obra-prima.

5 de março de 2010

L'Humanité (1999)













L’Humanité trata do que o título diz, a Humanidade. Mas L’Humanité foge a todos os convencionalismos a que estamos habituados. Todos. L’Humanité é um cinema puro, limpo. Seja nos planos, nos enquadramentos, na imagem em geral, L’Humanité é limpo, sem artifícios, sem embelezamentos, sem maquilhagem. Porque o que Dumont quer mostrar são as imperfeições humanas, o ser humano como ele é. E Bruno Dumont foge aos diálogos. Como diria alguém que me tem aconselhado grandes filmes e cineastas (ele sabe quem é), Dumont filma o vazio. E filma esse vazio de forma simples, crua. Mas Dumont filma sobretudo o instinto humano. Animalesco, primitivo. A violência, o sexo, o desejo carnal. O sexo é sem dúvida o instinto mais explorado pelo cineasta francês, como catalisador desses instintos animalescos do Homem, como entrega do ser humano a esse primitivismo (por isso os planos das vaginas – a da vítima logo no inicio do filme e posteriormente a de Domino). E tudo resume o vazio daquele local, daquelas pessoas. O vazio cultural, social e interior (Domino e Pharaon passam os dias – horas pós-laborais – à porta de casa um ao lado do outro. Domino alimenta o desejo de Pharaon por ela, aceita o sexo, a dada altura oferece-se a ele, mas recusa envolvimentos.).
E Dumont lembra Bresson com o seu minimalismo, a sua procura nos detalhes. Só tenho pena de não ter visto esta maravilha há mais tempo.